TENHO PENA DE MIM, POESIA DE CARLOS ABDON

18 de fev de 2021

TENHO PENA DE MIM

 

                        P/Roberto de Sena 

 

Tenho pena do poeta 

Tenho pena de mim 

De nada adiantou o Bob Marley 

Com seu reggae da resistência 

De nada adiantou a reunião do Sting 

Com o cacique Raoni 

De nada adiantou Luther King 

Falar sobre a opressão racial 

De nada adiantou Raul Seixas e Belchior 

Pregar a sociedade alternativa 

Sob o manto da lei paz e amor 

 

Tenho pena do poeta 

Tenho pena de mim 

De nada adiantou Muhammad Ali e 

Mandela levantar bandeiras  

Em derrubada ao regime da segregação 

De nada adiantou Bertolt Brecht 

Em sua dramaturgia 

Fugir dos interesses da classe dominante 

 

Tenho pena do poeta 

Tenho pena de mim 

Que carrega esse fardo Invisível  

De tristeza e aflição 

Nas entrelinhas ainda não escritas 

 

Tenho pena do poeta 

Tenho pena de mim 

Cujo ato de escrever 

 Não traz alívio ou serenidade 

Ao espirito inquieto 

 

Tenho pena do poeta 

Tenho pena de mim 

Já que todos os poemas de amor 

De nada adiantou 

Se não para alimentar essa dor 

Emaranhada na rede da fantasia  

E da ilusão 

 

Tenho pena do poeta 

Tenho pena de mim 

Todos os poemas de rebeldia 

De contravenção e revolução 

De nada adiantou 

Se não para virar folhas silentes 

 Em páginas fechadas 

De um livro já esquecido 

 Na estante dos tempos idos 

 

Tenho pena do poeta 

Tenho pena de mim 

Nada do que foi dito ou escrito 

Nada do que foi articulado 

Em manifestações mundiais 

Trouxe a tão esperada salvação 

 

Tenho pena do poeta 

Tenho pena de mim 

Tudo é vão e evanescente 

A humanidade continua decadente  

Apesar das canções 

 Apesar dos tambores 

Apesar das flores… 

 

Tenho pena do poeta 

Tenho pena de mim 

Nada mudará ante tudo erigido  

Enquanto cada ser, em vida 

Unilateralmente não entender 

O seu propósito de vida. 

 

Carlos Abdon 

 

 

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