SE EU ME CALASSE SERIA MUITO PIOR. LEIA POEMA DE ROBERTO DE SENA

30 de jul de 2020

 

Eu não tenho títulos

Eu nunca ganhei um prêmio de literatura

Não tenho nenhum poema pendurado

Nos salões da ONU, do MASP, do Louvre

Ou no vaticano.  Nem mesmo na parede lá de casa.

Tenho plena consciência da minha irrelevância

Ou melhor:  da irrelevância dos meus textos.

Tô cansado de saber que  não passo

de um zé ninguém com saco as costas

Um retirante do sertão com desertos

Dentro da alma,

Mendigando que alguém leia os meus versos

Suplicando que entendam alguma coisa que sai

Do abismo profundo dos meus olhos.

Sou um ser do desterro e do delírio

Tentando colocar em palavras o que enxergo

De injustiça, de autoritarismo e de exploração do ser humano.

Sei que ninguém dá a menor importância ao que escrevo

E é essa desimportância que me faz prosseguir

Ainda  que seja na condição de jumento sem dono.

Para um poeta sem láurea,  sem cátedra, sem tribuna e sem plenário

Resistir é o único caminho

Contra o obscurantismo, a barbárie e o genocídio.

Se eu me calasse seria muito pior.

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