MAPA MUNDI – POESIA PARA O FIM DE SEMANA

01 de maio de 2021

Tecido de Afonso Franco

Roberto de Sena

 

Ela tem olhos cor de Genebra

E de quebra

Uns seios  senageleses

Mil vezes,

Mil  meses

Eu dormi sobre eles

 

Ela é uma  estátua grega

Sendo – ao mesmo tempo –

uma deusa negra do Ilê Ayê

Mar egeu, leste europeu,

África e Sertão

Gueixa do Japão

Filha do Egito

Brava escandinava

Pele do Burundi

Ela tem o Mapa Mundi

Estampado  no olhar

 

 

É a  mulher que eu queria

Virgem Maria, Santa Luzia

Janaína e Iemanjá

Uma boca que me faz  viajar

Alemã com olhos de além- mar

Do amazonas ou de Belém do Pará

 

 

Olhos de caqui

Olhos Daqui

Da cor do Piauí

 

Seu olhar oriental

Me desorientou

Ela é zen budista e carnaval

Corda do destino

Violino e berimbau

Ela é Israel  e Palestina

América Latina

Pai  Xangô

Império Zulu

Deusa Indu

Mares do sul

No seu olhar

Seu beijo

Renova meu desejo

De navegar

 

Descendente de uma tribo Maia

Meus olhos ficam de tocaia

Na ponta da praia

Só para ver a beleza desta mulher

 

Filha de Tupã

Irmã de Jaci

Fêmea do Cariri

Companheira de Guaraci

Como é bom

Ver você aqui

 

Vestida de organdi

Tem o Mapa Mundi

Estampado no olhar

 

Ela ama Cristo e Jeová

Alá e Maomé

Mas também bota fé

Nos deuses do candomblé

 

 

 

Sonhei com ela

Andando nua

Em meu quintal

Estrela da bienal

Saída de dentro de um poema

De João Cabral

 

Senhora do meu luau

Lua no meu recital

Dona do meu martelo agalopado

Do meu repente aloprado

Inspiração da minha trova

Mãe da Bossa Nova

Inventora da Tropicália

Vencedora da Batalha

Minha poesia marginal

Corda do destino

Ela é violino e berimbau

Vive em qualquer lugar

Me ligou de Bogotá

Disse que ainda ia

Da um tempo na Turquia

Depois pousaria em Berna

Pra fazer uma tatuagem  pós-moderna

Na batata da perna

 

 

E se teletransportaria

Através da voz de Gal

E  daria um tempo no Nepal

E  com os olhos insones, impunes

Ouviria Arnaldo Antunes

Cesária Évora

Metáfora

Mundo afora

Da Holanda até Guiné Bissau

Ela é corda do destino

Violino e Berimbau

Tomara que em noite de lua

Ela pouse nua em meu quintal

 

 

Ela Lê a Bíblia,

A Torá e o Alcorão

Mas diz que viaja

Bem além do amém

de qualquer religião

 

Tanto é assim

que reza pra Odin

E pra um anjo querubim

Tomara que nunca se esqueça de mim

 

Me contou que quem fez sua cabeça

Foi um sábio do Gabão

Um poema concreto

Tales de Mileto

Sócrates, Aristóteles e Platão,

Antonio Conselheiro

E Luís Gonzaga, rei do baião

 

 

Bob Dylan, Bob Marley

E filme de Woody Allen

A levaram muito além

 

 

Disse que  sentiu

Um arrebatamento

Uma rajada de vento

Quando ouviu

Chico, Caetano e Gil

 

 

Sorrindo ela me disse

Que sua alma se subverteu

Quando leu Fernanda Young e Clarice

Bukoviski, Maicoviski e Leminski

 

Os olhos dela me lembram

Navios deixando o cais

Floradas Áfricas

E cafezais

 

Vestida de organdi

Ele tem o Mapa Mundi

Estampado no olhar

 

Pele do Burundi

Ela tem o Mapa Mundi

Estampado no olhar

 

E quando o dia azuleja

Talvez ela seja

A brisa que veleja

Sobre o mar

 

Pele do Burundi

Ela tem o Mapa Mundi

Estampado no olhar

Virgem Maria, Santa Luzia,

Shiva e Iemanjá

Sol da Bahia

E a poesia de navegar

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