LEIA AGORA SEGUNDO CAPÍTULO DA NOVELA, O PREFEITO QUE ACABOU COM A ELEIÇÃO E SE DECLAROU REI

03 de abr de 2020

King sitting on the throne illustration

 

Novela de Roberto de Sena

No capítulo anterior o prefeito conversava com os vereadores na tentativa de convencê-los a implantar o reinado em Santana das Pedras. Meio espantados, os vereadores ouviam o prefeito  tentando entender o raciocínio do homem.

 

 

– Olhe bem, vocês vão concordar comigo que o reinado é muito melhor. Veja bem: hoje em dia, com a peste da mizerenta da democracia, é obrigado ter eleição de quatro em quatro anos, num é assim?

– Isso mesmo – responderam os parlamentares.

-Vocês acham isso certo? Deixar o povo escolher quem vai governar? Eu nunca concordei com isso. Além do mais o povo tem que ser é governado num é escolher quem vai governar não. Num tá vendo que isso tá errado! Além do mais é muito desgastante eleição de quatro em quatro anos. Repare bem: hoje  eu sou prefeito, vocês são  vereadores, nós ganhamos  um bom salário, eu tenho carro oficial, verba de gabinete, empreiteiras que fazem o que eu quero,   juiz e promotor amigos, vocês que são vereadores tem casa alugada pela a prefeitura, tem gasolina de graça, tem os parentes  empregados, tem todos os privilégios mas… quando a gente perde a eleição o que acontece? …(O olhar do prefeito passeava de um a outro vereador). A gente perde tudo e não tem mais nada. Eu disse tudo. Num é verdade?O povo que dizia que nos amava, que nos era fiel, é o primeiro que nos abandona e debanda para o lado de quem ganhou. Num é mesmo? Juiz e promotor passa a nos tratar como se a gente fosse um qualquer, sem falar em outros aborrecimentos. Quando você perde a eleição  a vida vira um inferno, num é mesmo?

Os vereadores, mais que depressa, concordaram

– Nisso o senhor tá coberto de razão, quando se perde uma eleição, é um cabar de juízo, um trem medonho. Um potigongo. Até a mulher da gente quer nos largar.

O Prefeito continuou

Além disso,quando estamos no mandato somos obrigados a suportar  o povo na porta  de manhã, de tarde, de noite, sem dar sossego, pedindo bloco, telha, dentadura, remédio, passagem, pedindo para pagar conta de luz, de água, botijão de gás, pedindo emprego, é um cabar de juizo num buraco de socó. Num é mesmo?

– Isso é –  Tornaram a concordar os edis.

– Pois então vamos acabar com este sofrimento. Eu serei o rei e vocês deixarão de ser vereadores para ser os Nobres Conselheiros do Rei, o cargo é vitalício, vocês terão excelente salário, doarei terras, gados, boas casas para vocês e seus familiares  pois os Nobres Conselheiros do Rei terão que ser homens de posse, nobres fidalgos. Além disso, vocês ficarão no cargo até morrer e quando morrer o cargo será entregue a um filho seu e quando o seu filho morrer passará para o seu neto. Acabamos, de uma tacada só, com essa bestagem de eleição. Nunca mais vocês vão ter ninguém na porta pedindo para pagar conta disso e daquilo. Nunca mais vocês vão precisar pedir voto e nem fazer favor pra ninguém. Vão  ter a vida que pediram a Deus. É ou não é?  O que me dizem?

Os vereadores conversaram entre si, argumentaram que poderia haver problemas com a lei mas se o prefeito estava dizendo que podia é porque podia e pronto. Terminaram sendo convencidos pela lábia do prefeito e decidiram topar a empreitada confiantes de que naquele lugarejo a lei dificilmente dava as caras. Não se pode esquecer que  o negócio era altamente vantajoso para os vereadores. Com a cidade sendo transformada em um reinado, adeus gastar dinheiro com eleição de quatro em quatro anos, adeus medo de perder, tudo isso agora iria fazer parte do passado. Teriam poder enquanto vivos fossem.

–  Só quero lhes informar que tem uma condição para esta boa vida que vocês terão com a criação do reinado.

– Condição? Que condição? – os vereadores aguardaram com expectativa a resposta do prefeito.

–  Ninguém poderá criticar ou falar mal do rei. Quem for pego fazendo isso será acusado de traição, pratica de crime de lesa majestade e condenado a forca imediatamente. Certo?

– Perfeitamente – responderam os vereadores doidos para ficarem livre de eleições e do peditório do povo  – Senhor prefeito a quem em breve chamarei de majestade,  quem tiver todas essas benesses que o senhor está nos oferecendo e ainda falar mal do rei, tem que ser é enforcado mesmo. Sem pena, sem dó e sem misericórdia. E a família ainda tem que pagar a despesa para o cabra largar de ser ingrato.

Satisfeito, o prefeito prosseguiu

– Então, já que estamos entendidos e combinados, a partir de agora v amos preparar a instalação do reinado. Faremos uma belíssima cerimônia para minha coroação. Entrarei para a história como o primeiro rei de Santana das Pedras e vocês também entrarão para a história ao serem empossados nos cargos de  Nobres Conselheiros do Rei.

 

A REAÇÃO DO VEREADOR JOÃO RUFINO, LÍDER DA ESQUERDA

O vereador João Rufino chegou a Câmara Municipal,  pontualmente como fazia sempre,  para a sessão daquela quarta-feira mas estranhou que o prédio estivesse fechado faltando poucos minutos para o início da reunião. Chamou o zelador e perguntou o motivo do fechamento da Casa Legislativa de Santana das Pedras.

– Oxente e o senhor num tá sabendo?

– Sabendo de que?

– O prefeito mandou avisar que, dagora por diante, não existe mais Câmara de Vereador aqui em Santana das Pedras, não. Deu a orde que é promode acabar com essa burrage de Câmara de Vereador.

_ Oxente. Ele endoidou foi? Que ele é um ditador a gente sabe. Só que prefeito num tem poder de fechar a Câmara não. Só se ele tiver transformado isso em uma ditadura escancarada.

– Essa tar de ditadura eu num sei o que é. Mas vi dizer que agora Santana das Pedras vai ser um reinado e que o prefeito vai ser declarado o primeiro rei da cidade num sabe? Diz que vai ser uma festança grande de botar caboge pela janela.

João Rufino quase perde a fala

– Vai ter o que? Rei? Aqui em Santana das Pedras? Rei? O prefeito tá ruim da bola, tá zoró da ideia. Isso é ilegal, é inconstitucional, não existe reinado no Brasil. Eu num tô acreditando num troço desse. Esse prefeito passou dos limites, vou denunciar em Brasília. Isso é uma grave afronta a constituição nacional. Era só o que me faltava, quando mais eu rezo mais assombração aparece. É cada coisa que contando ninguém acredita. Esse prefeito tá pensando que beiço de jegue é arroz doce, tá conversando miolo de pote.

Com a cara enfezada, João Rufino entra no seu carro, dá a partida e sai queimando pneus.

O zelador da Câmara vê o carro sair em alta velocidade, sacode a cabeça e pensa

– Home quá. É mior mermo fechar essa tar desta Câmara de Vereador. Ninguém sabe pra que selve essa bubônica da bexiga, essa gota serena. Os cabras num faz nada, sá fala ingrisia, bolodório, só bebe água, toma cafezinho, come o dinheiro público e cumpre as orde do prefeito. Se fechar essa bubônica dessa Câmara ninguém vai sentir farta e ainda vai economizar dinheiro público. O prefeito tá certim em fechar essa peste cacete armado. Eu sou de acordo. Home se sou, cê num tá vendo que um trem desse num pode.

OS PREPARATIVOS PARA A IMPLANTAÇÃO DO REINADO EM SANTANA DAS PEDRAS

No gabinete o prefeito e a secretária Dona Cândida tomavam as providências para a instalação do reinado em Santana das Pedras.

– Olhe dona Cândida vamos cuidar de todos os detalhes com muita atenção. Vamos chamar os lideres religiosos de todas as religiões, todas, entendeu bem?

– Sim senhor prefeito, quer dizer: majestade.

-Quero que eles façam a minha coroação em um culto ecumênico do mais alto nível.  Depois eu receberei os cumprimentos no salão nobre e darei posse aos Nobres Conselheiros do Rei.

– E a roupa senhor prefeito? Quer dizer, Vossa Majestade, como será feita?

– Mande chamar Rosa de compadre Neco que é a melhor costureira daqui. Quero uma roupa no estilo dos reis franceses, parecido com o Rei Sol. A coroa e o cetro mande fazer no ourives Pedro de Lera que é caprichoso.

– E o trono, Vossa Majestade, quem vai fazer?

– Mande na carpintaria de Chico Bomba. Diga ele que capriche que trono de rei tem que ser trem luxento, de muito luxo e de muita catilogência. Tá me entendendo?

– Sim, majestade.

– No tocante as comidas Dona Cândida, mande fazer só comida de rico, essas comidas   de nome acazumbado, frescurento,  loxicoloso que a  gente nem consegue falar, é desta comida  que tem que ter pois um reinado só é reinado de verdade se tiver comida estrangeira que ninguém sabe o que é, ninguém gosta mas todo mundo sai falando bem pra demonstrar que é sabido. Sabe como é: todo besta gosta de demonstrar que é sabido mesmo todo mundo sabendo que o sabido é besta.

– Certo, Majestade, pode confiar que vou seguir a risca suas orientações

– Pois muito bem. Num é preciso lhe advertir que não pode ter buchada, sarapatel, feijoada, mocotó, essas comidas de pobre num pode ter em solenidade de implantação do reinado de Santana das Pedras. Tem que ser comida de responsabilidade. Trem luxento como eu já disse.

– Entendi Majestade. E quando a música majestade? Pode ser aquela dupla sertaneja que o senhor gosta?

– Tá doida dona Cândida. Onde a senhora já viu dizer que em implantação de uma coisa séria como um reinado se toca música sertaneja? Eu quero uma grande orquestra, mande contratar em São Paulo ou no Rio de Janeiro e não me venha com negócio de samba, nem de forró, e nem de axé ou pagode. Nada disso. Tem que ser uma orquestra tocando música chique e de responsabilidade para todo mundo ver que o nosso reinado começou em grande estilo como o Rei Midas, ou o Rei Sol, ou  Cesar o grande imperador romano. Tem que ser coisa deste calibre, desta catilogência, a senhora captou bem?

– Sim majestade

– Pois muito bem, agora pode ir tomar os providenciamentos  para que tudo saia como eu estou planejando.

A secretária  fez uma reverência curvando o corpo e, em seguida, rodou nos calcanhares e  se retirou.

VEJA AMANHA O PRÓXIMO CAPITULO DA IMPLANTAÇÃO DO REINADO EM SANTANA DAS PEDRAS

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