LEIA AGORA O QUARTO CAPÍTULO DA NOVELA, O PREFEITO QUE ACABOU COM A ELEIÇÃO E SE DECLAROU REI

05 de abr de 2020

King sitting on the throne illustration

 

NOVELA ESCRITA POR ROBERTO DE SENA

NESTE CAPÍTULO NARRA-SE A CORAGEM DO LÍDER ESQUERDISTA JOÃO RUFINO PARA IMPEDIR A INSTALAÇÃO DO REINADO E A MANUTENÇÃO DA DEMOCRACIA EM SANTANA DAS PEDRAS. JOÃO RUFINO SENTIU NA PELA QUE A DEFESA DA DEMOCRACIA, EM DETERMINADOS MOMENTOS DA HISTÓRIA, PODE CUSTAR MUITO CARO.

No seu escritório, o vereador João Rufino, com a tensão estampada no semblante, consultava os seus assessores na tentativa de encontrar uma forma de impedir o prefeito de transformar Santana das Pedras em  um reinado.

– Onde já se viu um negócio desses? Precisamos informar as autoridades em Brasília, entrar com uma ação na ONU, recorrer aos organismos internacionais na Europa. Não podemos permitir que este prefeito, faça uma maluquice dessa. Isso é inconstitucional! Não pode! não pode! Não podemos aceitar esse retrocesso e nem passar por uma vergonha dessa. Se bem que, o que está acontecendo no Brasil, hoje em dia, incentiva qualquer maluco a tomar qualquer atitude, desde defender o nazismo, a intolerância, o preconceito e até mesmo, veja só que descalabro,  inclusive, declarar-se rei. Como é que pode uma coisa dessas? Um prefeito de uma cidadezinha do interior, declarar-se Rei e todos tem que aceitar e bater continência para um maluco desse! Como é que pode um negócio desses? Isso é o fim do mundo. Eu não aceito isso e vou colocar a minha vida em defesa da democracia e do estado democrático de direito.

Exasperado, João Rufino não se continha tamanha era sua indignação. Em toda a sua vida de líder oposicionista,  já acompanhara muitas situações inusitadas mas jamais passara pela sua cabeça que um dia um prefeito tivesse a ousadia de se declarar rei passando como um rolo compressor por cima da Constituição e do estado democrático de direito.

-Calma João, diziam os assessores, trazendo um copo de água com açudar para o líder esquerdista. Assim você vai ter um ataque do coração.

Os assessores  do vereador fingiam calma mas era uma tática para acalmar o chefe. Eles também estavam perplexos com a atitude do chefe do executivo municipal e, jamais haviam imaginados que o prefeito fosse capaz de golpe tão ousado.

– Ele percebeu que poderia ser cassado, tá fazendo uma péssima administração,. Tá com um ano de salários atrasados e deu esse golpe para salvar seu mandato – disse um assessor e completou em seguida:

– É João temos que manter a calma para não perdemos o controle e não entrarmos no jogo dele mas temos que admitir que a coisa ficou feia para nós. O prefeito soube armar a treita. O bicho é craque em vissunagem. O povo tava revoltado, fazendo greve, pedindo a renuncia dele e ele, numa tacada que ninguém esperava,  virou o jogo, ao propor a criação deste tal de reinado aqui em Santana das Pedras em pleno século vinte e um. Santana das Pedras voltou para a idade média.

João Rufino tomou um gole dágua e sem conter a raiva vociferou

– Santana das Pedras não voltou para a idade média, não. Na verdade nunca saiu da idade média. Este prefeito é um símbolo do atraso, nem celular que em todo lugar do mundo tem aqui ainda não tem. Aqui não pega celular. Nem celular, imagine então médico, remédio, escola, salário em dia. O miserável do prefeito ia ser cassado pelo povo e agora me inventa essa história de reinado. Isso é um desrespeito a república brasileira. Eu vou tomar todas as providências para que essa loucura não aconteça aqui em Santana das Pedras. Vou as últimas consequências para impedir esse absurdo.

O assessor deu uma notícia para João Rufino

– Você tá sabendo que o prefeito tá organizando um plebiscito para a população votar se é a favor da  democracia ou do reinado?

– É mesmo? Um plebiscito? Essa é nossa chance. Vamos agora mesmo para a rua dizer ao povo que vote contra, que a democracia não pode acabar, que a democracia é que garante o direito de todos, vamos dizer ao povo que democracia corre perigo, vamos colocar carro de som nas ruas, distribuir panfletos,  discursar nas praças, reunir multidões, fazer um chamamento forte  e o povo entenderá o golpe que o prefeito quer dar e ficará do nosso lado. Do lado da democracia. Tenho certeza disso.

O assessor sacudiu a cabeça, desanimado.

– Não adianta João. O prefeito é mais cheio de vissunagem do que a gente pensa, é o homem mais treiteiro do Brasil. Já comprou as lideranças religiosas, comprou os  vereadores e, todos eles juntos, fizeram a cabeça do povo de Santana das Pedras de tal forma que não tem mais quem mude o voto deles. Botaram na cabeça do povo que a democracia é coisa do demônio, que é invenção do satanás e que o reinado foi Deus que deixou, disseram até que  na Bíblia fala em reinado mas não fala em democracia. Eles aproveitaram que a população é muito religiosa e fizeram uma lavagem cerebral no povo. Num tem mais volta, o reinado vai ganhar de goleada. Devemos fazer a nossa autocrítica e admitirmos que comentemos um erro estratégico da mais alta gravidade: nos afastamos muito da religião, demos pouca importância ao povo religioso e o prefeito, percebendo essa nossa falha, aproveitou a brecha, disse o que eles queriam ouvir e consegui rapidamente a adesão de todos eles.

João Rufino ficou em silêncio por alguns minutos, refletindo sobre as palavras do assessor, suspirou profundamente, passou a mão na barba e depois fez a seguinte proposta:

– Então vamos entrar na Justiça, Vamos impedir, por via judicial que o reinado seja instalado. A Constituição da República não permite reinado no Brasil. Vamos pra cima deles.

Mal terminou de falar e seu entusiasmo foi cortado por um assessor. Com uma caneca de café na mão ele fez uma previsão sombria.

-Também num vai adiantar nada entrar na Justiça. É pura perda de tempo. Juiz, promotor, advogado, oficial de justiça, já foram todos cooptados e vão fazer vistas grossas e deixar o reinado ser implantado aqui nas barbas deles. Para essa gente o que interessa é dinheiro no bolso, você não viu o que aconteceu com a operação Faroeste lá em Formosa do Rio Preto? Então? Meta na sua cabeça, meu amigo, no judiciário tem gente séria e honesta mas também tem aqueles que comem bola, dinheiro, arame, tá me entendendo?  E isso o prefeito deve ter dado de sobra para eles. Tão todos ricos e aqui para o seu governo, já se declararam súditos do rei. Juraram lealdade eterna.

João Rufino rebateu

– Pois você fique certo de uma coisa: se tiver um único homem digno em Santana das Pedras que não se rende a este prefeito crápula, este homem sou eu. Vou a Justiça e o juiz terá que dizer na minha cara que ele vai aceitar que o prefeito pratique tal absurdo.

 

O PLEBISCITO

No dia do plebiscito, Santana das Pedras parecia mergulhada em uma grande festa. A multidão caminhava para as urnas. Os bares estavam apinhados de gente. Ao arrepio da lei, o prefeito mandou liberar cachaça para quem quisesse encher os cornos. Nas esquinas o espetinho corria solto deixando o delicioso cheiro no ar. O povo estava enlouquecido nas ruas e a todo momento se ouvia os gritos vindo de todos os lados.

ABAIXO A DEMOCRACIA

DEMOCRACIA É COISA DO DEMÔNIO

DEMOCRACIA TIRA O DIREITO DOS MAIS POBRES

DEMOCRACIA É CONTRA O POVO

DEMOCRACIA FOI INVENTADA PELO SANTANÁS

QUEREMOS O REINADO

PESSOAS DE BEM APOIAM O REINADO

VIVA O REI

No dia seguinte, feita a apuração dos votos. 90 por cento da população votou a favor do reinado.

Na prefeitura, o prefeito e seus aliados comemoravam. Fogos pipocavam para todos os lados e por toda a noite se ouvia berros de VIVA O REI, VIVA O REINADO, MORTE A DEMOCRACIA, FORA DEMÔNIO, FORA SANTANÁS. MORTE A ESQUERDA.

 

O PREFEITO E A SECRETÁRIA COMEMORAVAM A VITÓRIA

Com um largo sorriso no rosto, descontraído, feliz da vida, o prefeito conversava com a secretária.

– Dona Cândida demos um golpe de mestre. Agora a oposição num vai ter nem do que reclamar. O povo votou e escolheu o reinado. Que vitória esmagadora. Essa foi para tirar João Rufino e sua turma do ramo. Foi pra enterrar de vez a oposição.

– É verdade seu prefeito, quer dizer majestade, o reinado foi legitimado pelo povo. Num adianta a oposição fazer fuá. Alias o melhor disso tudo é que a partir de agora com o reinado legitimado pelo povo, acaba a oposição. O senhor vai ser rei e quem falar mal do rei será condenado a morte e enforcado em praça pública. Não é assim majestade?

– Isso mesmo dona Cândida, tomaremos todos os providenciamentos para que se cumpra este postulado do reinado. E cá pra nós viu dona Cândida, vou mexer os pauzinhos e fazer uma vissunagem daquelas para que o primeiro a ser enforcado seja o vereador João Rufino.

– Oxente majestade, mas até agora ele tá calado. Num disse nada.

– É verdade. Mas se ele tá calado é porque boa coisa ele não anda fazendo. Logo, logo ele começa a fazer critica. A senhora sabe que esse povo da esquerda é desaforento que só vendo. Só que agora nós estaremos num reinado e eu mando ele pra forca na primeira critica que ele me fizer.

A secretaria tinha grande ascendência sobre o prefeito. Corria, inclusive, o boato de que os dois mantinham um romance secreto coisa que, se for verdade, saberemos mais para frente e no momento certo. Por enquanto tudo não passa de fofoca e, como se sabe, não se pode dar crédito a fofoca envolvendo o nome do rei. Quem fizer isso pode terminar seus dias pendurado em uma forca em praça pública. De qualquer forma sabe-se também  que a primeira dama odiava a secretaria e mal se falavam protocolarmente.

JOÃO RUFINO SE REÚNE COM O JUIZ DE SANTANA DAS PEDRAS E APELA PARA QUE O REINADO NÃO SEJA IMPLANTADO NA CIDADE

– Meretíssimo, eu vim aqui suplicar a vossa excelência que acabe com essa palhaçada de criação de reinado em Santana das Pedras. Onde já se viu um negócio desses? Isso é inconstitucional. Não existe reinado no Brasil, nos vamos virar motivo de chacota na mídia.

O juiz mexeu nos óculos e com um sorriso irônico retrucou

– Que mídia vereador? Que Midia? Qual é a mídia de que dá importância para Santana das Pedras, me digue? Ninguém vai ficar sabendo disso e, (fez um pausa) … se souber não vão dar a menor pelota.

– Mas meretissimo, isso é uma afronta a constituição, o senhor vai assistir a implantação de uma ditadura em uma cidade do sertão baiano?

– Ditadura? Que Ditadura? Do que você está falando? Não tô lhe entendendo.

– Uma monarquia é um regime absolutista onde quem manda é o rei, portanto é uma ditadura.

O juiz ergue a mão como quem diz “alto lá”

– Não é bem assim. O povo escolheu de forma democrática. Não se esqueça que 90 por cento da população de Santana das Pedras votou a favor da criação do reinado. Ou seja: foi uma escolha democrática. Está dentro da lei, então a Justiça está de pés e mãos atadas e não pode fazer nada.

– Mas teve corrupção para aprovação do reinado

O juiz olhou enviesado para João Rufino e perguntou

– Teve corrupção é? Foi? Então me explique como foi para eu tomar as providências.

– O prefeito comprou os líderes religiosos e os vereadores para que eles fizessem a cabeça do povo. Chegaram a dizer que a democracia foi criada pelo  demônio e que o reinado foi inventado por Deus, utilizaram até a Bíblia para disseminar esta mentira. Isso é uma afronta.

– Bom você tá fazendo uma acusação grave. O ônus da prova é de quem acusa. Apresente as provas de que houve corrupção e a justiça de modo imparcial e célere tomara todas as providências. Tem as provas? Mostre-me por favor. Eu quero ver para tomar as providências.

O juiz falava de forma grave e severa. João Rufino foi obrigado a admitir

– Provas eu não tenho mais é isso   que se ouve falar a boca pequena na cidade.

O juiz fez uma advertência

– O senhor é um homem público e sabe que fofoca não serve de prova de nada. Quero lhe chamar atenção para um detalhe que está lhe passando desapercebido. O reinado vai ser oficializado e o prefeito será declarado rei.

– Isso é ridículo – rebateu João Rufino

– Ridículo ou não   – continuou o juiz – devo lhe advertir que em um reinado não se pode falar mal do rei, quem assim proceder incorre no crime de lesa majestade e poderá ser condenado a morte e enforcado em praça pública. Essa é a lei em qualquer reinado.

Indignado João Rufino cuspiu fogo

– Meretissimo, o senhor se esqueceu que estamos no Brasil e no Brasil não há pena de morte. Ou o senhor se esqueceu disso?

– Não me esqueci não meu caro vereador. Só que aqui em Santana das Pedras entraremos em um regime especial de legislação da monarquia. Portanto tenha muito cuidado com o que vai falar sobre o rei ou o senhor pode ser o primeiro a ter uma corda no pescoço em praça pública.

– Isso é uma ameaça?

– Não. De forma nenhuma. É um aviso de um amigo. E só para lhe provar que sou seu amigo e lhe quero bem, vou fingir que não ouvir você fazer estas pesadas acusações contra o rei e fica o dito pelo não dito. Mas não conte muito com a sorte. Da próxima vez posso não ser tão bondoso como estou sendo hoje. Agora com licença fui convidado para ajudar a redigir o histórico decreto que transforma Santana das Pedras em um reinado e tenho que me juntar a outra comissão de notáveis para preparamos esta peça tão importante para nossa cidade. Com a sua licença por favor. Passar bem.

João Rufino se retira com a sensação de que o realismo fantástico se instalara em Santana das Pedras. Chegou a imaginar que estava sonhando e que logo, logo aquele pesadelo passaria. Qual nada! O prefeito dera o golpe certo e colocara no mesmo pacote Justiça, Religião, Vereadores e sabe-se lá mais quem. Agora João Rufino precisava  ter muita sagacidade para tentar reverter o quadro e fazer a democracia voltar a vigorar em Santana das Pedras. Mas como? Eis a questão.

VEJA NO PRÓXIMO CAPITULO

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