CRÔNICA: QUANDO BALTAZARINO TROUXE O BOTAFOGO DO RIO PARA JOGAR EM BARREIRAS

12 de jun de 2018

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Josimar, estrela da seleção na Copa de 1986. jogou em Barreiras com o Botafogo

 

 

Roberto de Sena

Mural do Oeste

Baltazarino Araújo Andrade entrou para a história como um dos melhores prefeitos de Barreiras. Ainda hoje, muitos anos depois da sua morte, suas obras continuam ai para todo mundo ver, como é o caso do CAB – Centro de Abastecimento de Barreiras –  Ginásio de Esportes, Parque de Exposições, Estádio Geraldão, entre muitas outras que não dá para enumerar e que são marcos da nossa cidade.  Mesmo realizando grandes obras e, sendo Barreiras ainda uma cidade pequena e sem muito destaque no cenário nacional, Baltazarino conseguia proezas como por exemplo, trazer o Botafogo do Rio de Janeiro, campeão brasileiro do ano anterior e uma das melhores equipes do País, para jogar em Barreiras.

É deste assunto que tratarei nesta crônica.

Lembro-me como hoje. Corria o ano de 1986, logo depois da Copa do Mundo, quando a notícia foi dada em primeira mão pela rádio Barreiras. O radialista Gilmar Azevedo, que na época era um fenômeno de audiência e quase um mito na cidade, informou. “Atenção, atenção senhores ouvintes. Temos uma grande novidade, uma grande notícia para Barreiras. Acabo de receber um telefonema do prefeito Baltazarino Araújo Andrade e ele garantiu que o Botafogo do Rio de Janeiro vem jogar em Barreiras com Josimar e tudo. Se Baltazarino falou pode assinar embaixo que é verdade”, sentenciou Gilmar.

Em dois minutos a notícia correu feito um raio. Na Praça  Castro Alves, conhecida popularmente por Praça das Corujas, um senhor que era dono de uma barraca de vender cigarros e refrigerantes, bem na esquina de frente para a avenida, dava pulos de alegria e gritava:

– “Finalmente vou realizar meu sonho. Eu sabia que não iria morrer sem ver o meu Botafogo jogar. Só Baltazarino pra me dar um presente desse! Enquanto vida eu tiver não deixo de votar neste homem é nunca.” E pulava feito um doido dentro da barraca.

Um barbeiro por nome Didi que trabalhava em um salão na Praça Coronel Antonio Balbino e que hoje é chamada de Praça 24 Horas, passou o resto do dia soltando foguetes para comemorar a vinda do seu time de coração.

Já os adversários de Baltazarino se encarregaram de lançar a dúvida no ar

-Baltazarino tá ficando doido,  sabe que desta vez a oposição vai ganhar a eleição e inventou essa história de que vai trazer o Botafogo a Barreiras. O povo chocha mais nunca vai ver um time profissional do Rio de Janeiro vir jogar aqui. Aonde que isso acontece nunca? Logo o Botafogo que foi campeão brasileiro, que tem o Josimar, vem parar em Barreiras? Aonde? Home conta outra que nessa ninguém acredita.

E ficava aquela discussão nas esquinas da cidade. Os aliados de Baltazarino tiravam sarro com a oposição

– Só Baltazarino mesmo pra nos dá essa alegria de ver o Botafogo jogar em Barreiras. Quem é o outro que teria uma coragem desta?

Os adversários rebatiam

-Que Botafogo que Baltazarino traz aqui nada rapaz. Tá ficando doido é? Quem vai pegar fogo é o juízo de vocês pois nós vamos ganhar as eleições.

Quem ama o futebol como é o meu caso, sabe muito bem que naquele tempo o Botafogo tinha um jogador chamado Josimar, famoso lateral direito que havia sido o destaque da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1986 realizada no México, tendo marcado dois gols que de tão belos entraram para a história das Copas. Josimar era a estrela e estava sendo sondado para  jogar em grandes times da Europa. Seu nome estava estampado nas capas dos principais jornais do Brasil, ele aparecia a todo momento na TV em programas esportivos de grandes audiência e multidões iam aos estádios para vê-lo jogar.

O povo de Barreiras estava ansioso para ver de perto as sensacionais jogadas do craque botafoguense que não fazia nem um mês todos viam pela televisão jogando na Copa do Mundo, fazendo belíssimos gols pela Seleção Brasileira. Os adversários de Baltazarino continuavam baixando o sarrafo e dizendo ao povo que tirasse o cavalo da chuva e que o Botafogo jamais pisaria em Barreiras.

-Vocês acham que um jogador do nível de Josimar vem jogar em Barreiras? Nem hotel a cidade tem para receber um craque deste calibre. Baltazarino tá é enganando o povo pois sabe que a próxima eleição ninguém tira da oposição.

O assunto tomou conta da cidade. Na hora do almoço e do jantar quando as famílias estavam reunidas ou domingo depois da missa. No famoso bar Aconchego de Nelli Nancy, no bar do Bento, no bar do Humberto, no Mercado Velho, na loja de Naldomar Campos, no Supermacado Castro, na loja de Annibinha, na Casa de Peças Sabbá, de Barrerinhas a Vila Brasil, da Baraúna ao Mucambo, a vinda do Botafogo era o que se comentava por todos os cantos entre ricos e pobres, pretos e brancos, adultos e crianças. Dizem que até o padre Geraldo na época teria falado durante uma pregação da importância do futebol para a saúde e o bem estar do povo. Por ai se pode deduzir a importância que este fato teve. Se não estou enganado, o Botafogo foi o primeiro grande time do futebol brasileiro que pisou em Barreiras, numa época em que trazer um time profissional para uma cidade do interior era uma façanha digna de nota.

Mas dizem que aconteceu um pequeno entrevero e que quase o Botafogo não vem. Não sei se é fato ou se é lenda mas o caso teria se dado da seguinte forma:

Dois dias antes viajar para  Barreiras o Botafogo jogou em Brasília. Conta-se que Josimar pediu para não vir para Barreiras e o empresário teria ligado para Baltazarino tentando dar um migué.

-Bom dia prefeito, o Botafogo jogou ontem em Brasília, o time deu um show e vai fazer um grande espetáculo ai em Barreiras. Já estamos aqui prontos para embarcar.

Baltazarino abriu em sorrisos no telefone e mostrou toda a sua alegria com o empresário

– Muito bem, compendeu, o povo de Barreiras tá soltando foguetes na rua de alegria para ver o Botafogo. Vamos fazer uma comitiva grande para recepcionar o time na entrada da cidade. Vou botar banda de música, mandar fazer umas  galinhas caipira no jeito para os atletas sentirem o sabor do nosso tempero. Vai ser uma festança daquelas que nosso povo sabe fazer.

-Só tem um pequeno problema seu prefeito, mas é coisa sem importância, probleminha bobo que não vai atrapalhar em nada o espetáculo.

-Sim, pois não, pode falar. É dinheiro? Diga lá! o que for a gente resolve. Aqui num tem parangolé não, compendeu?

O empresário tossiu no telefone e, de forma educada, tentou enrolar Baltazarino

-Olha prefeito o Josimar no jogo de ontem sofreu uma contusão e vai ter que voltar para o Rio de Janeiro para ficar em tratamento. Tem uns times da Europa oferecendo um bom dinheiro por ele e o Botafogo não pode perder essa oportunidade e não quer correr o risco do jogador ter um problema mais sério. Entendeu?

Baltazarino que era explosivo, ficou irado e não mediu as palavas

-Como é que é? É verdade o que eu tô ouvindo? O Josimar não vem? É isso mesmo que você falou ou eu tô ouvindo vozes do além?

-É isso mesmo seu prefeito. Ele não vai poder ir. Olhe mas não tem problema nenhum. No jogo de ontem aqui em Brasília, ele foi substituído por um jogador da base que jogou um bolão, deu um show e a torcida gostou mais dele do que do Josimar. Sabe como é Josimar depois da Copa deixou a fama subir para a cabeça, tá pensando que é o rei da cocada preta, mas num é não. Vamos provar ai em Barreiras que não precisamos dele para fazer um grande espetáculo e dar um show de bola como a torcida gosta. Né não prefeito?

Baltazarino sentiu na hora o cheiro de malandragem no ar. Não engoliu o “H” do empresário e de forma ríspida, entrou de sola

-O que! Cê tá pensando que eu sou algum besta é? Pois olhe, vou lhe dizer uma coisa: se Josimar não vier, não precisa o Botafogo vir não. Pode voltar dai mesmo compedeu? Nem venha me enrolar com tal de jogador da base que eu num quero saber de base nenhuma. Alias se o Botafogo tiver a coragem de vir até aqui sem o Josimar ai vocês vão conhecer a base direitinho pois vão sair daqui na base da taca. Vai ser na base da taca compedeu. É taca de vergalho de boi para aprender a cumprir a palavra.

-Mas seu Baltazarino, é que…titubeou o empresário no telefone.

Baltazarino nem deixou que ele continuasse

-Não tem mais nem menos e nem mais. Se Josimar não vier não precisa vir nem você, nem seu pai e nem sua mãe e nem ninguém. Pode voltar dai mesmo e já vou mandar sustar o cheque do pagamento agora. Liga ai pro banco menino e manda sustar o cheque que eu dei para o Botafogo – gritou ele para um auxiliar e bateu o telefone cortando bruscamente a conversa com o empresário.

Olhe, dizem que não passaram nem 10 minutos, o empresário voltou a ligar.

-Prefeito o senhor me desculpe, eu entendi mal, o jogador que tá machucado é um tal de Clerismar, que eu mesmo num sei nem quem é. É esse que não pode ir. O Josimar vai sim. Pode ficar tranquilo. Se o senhor quiser  boto o Josimar aqui no telefone para falar com o senhor.

Dizem, não sei se é verdade, que Josimar falou com Baltazarino, pediu desculpas pelo confusão feita pelo empresário e ainda garantiu que traria uma camisa autografada para o prefeito e teria dito até que, se fosse da vontade de Baltazarino, se comprometia a vir a Barreiras no período da eleição fazer campanha para o candidato dele. Não creio que tenha dito isso mas já escutei esta versão em muitas ocasiões.

O certo é que o Botafogo chegou a Barreiras debaixo de imenso foguetório e muita festa. Josimar era tietado por todos, embora, não tivesse dado muita atenção para quase ninguém.

No dia do jogo o Estádio Geraldão estava tão lotado que parece que a cidade quase toda estava lá. Pelas ruas em volta podia se ver ônibus de caravanas que vinham de Santa Rita de Cássia, Formosa do Rio Preto, Riachão das Neves e as demais cidades da região.

Eu estava no Estádio Geraldão neste dia. Foi um espetáculo maravilhoso e que ficou na memória do povo.

No dia seguinte quando o Botafogo foi embarcar de volta para o Rio de Janeiro, centenas de torcedores foram ao hotel e levaram presentes para os jogadores. Carne de bode, buchada, doce de buriti, peta, ginete, licor da caju, rapadura, mel de abelha, litros e mais litros de cachaça brejeira. Kincão e Hugo Assis, do antigo Cine Revelação, racharam de ganhar dinheiro tirando foto do povo com os jogadores.

Ah ia me esquecendo de dizer: na eleição seguinte Baltazarino lançou o seu vice Paulo Braga, candidato a prefeito. Paulo venceu o pleito, fez um bom governo e posteriormente foi deputado federal. Hoje faz política de bastidores  e continua sendo uma das lideranças de Barreiras.

Era assim o nosso saudoso Baltazarino. Não engolia “H” de ninguém e nem aceitava vissunagem. Quando alguém vinha com conversa mole, com enrolação, ele percebia no ato e ia logo dizendo: “Sabedoria quando é demais vira bicho e come o dono.”

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