QUINTO CAPÍTULO DA MINISSÉRIE, “A REVOLTA DOS DEFUNTOS” ESCRITA POR ROBERTO DE SENA

07 de mar de 2021

 

DONA MARILDA VAI AO ENCONTRO DO PREFEITO

 

Naquela manhã dona Marilda, presidente da Associação das mulheres Defensora dos Bons Costumes de Santana das Pedras pediu uma audiência com o prefeito. Ela foi introduzida no gabinete pela secretária dona Candida

 

– A que devo tão ilustre visita?

Perguntou o prefeito cheio de rapapés e de outros remulengos.

Dona Marilda com seu jeito despachado foi direto ao assunto

– Vim aqui apelar para que vossa excelência me digue, de viva voz se é verdade essa história que o povo anda comentando que o senhor vai autorizar a construção de uma barragem no rio de Santana das Pedras? Esse é o primeiro assunto: é verdade isso?

– Bem, a senhora sabe, o povo gosta muito de boato.

Dona Marilda com seu jeito decidido de imperatriz sertaneja, não deixou barato.

– Eu fiz uma pergunta, senhor prefeito e quero resposta. É verdade ou não é?

– E se for verdade qual o problema? Uma barragem vai trazer progresso, desenvolvimento, emprego e melhorar a vida do povo. É ou não é?

A mulher discordou na hora.

– Não é isso que o povo pensa. O senhor, por acaso, não acompanhou a tragédia de Brumadinho? Não viu quantas pessoas morreram lá, quantas famílias foram destruídas? Qual o emprego e qual o dinheiro que pagam uma tragédia dessa? É isso que o senhor quer que aconteça em Santana das Pedras?

O prefeito, com seu jeitão de coronel sertanejo, bateu nervosamente as mãos sobre a mesa e pensou em dizer um monte de desaforo para aquela mulher que o interpelava daquela maneira sem respeitar a sua autoridade mas conteve-se.

 

Dona Marilda continuou

– Eu quero pedir em nome do povo de Santana das Pedras, em nome do voto que eu lhe dei nas últimas eleições que o senhor não leve adiante essa ideia dessa barragem. Não coloque a vida desse povo em perigo ou o senhor pode ser o responsável por um genocídio e quero pedir também para o senhor refazer o muro do cemitério e mandar também zelar do campo santo de nossa cidade. O senhor não tá percebendo que estão acontecendo coisas estranhas que podem ser provocadas pelas almas dos mortos revoltados com a situação de abandono do cemitério e com a construção da tal barragem?

O prefeito subiu o tom

– Ora dona Marilda, com todo respeito que a senhora me merece, eu não tô dando conta de cuidar dos vivos, vou ter tempo para ouvir ladainha de mortos? Quem morreu, morreu. Isso é lá com Deus ou com o diabo e não comigo. Eu não me meto nesses assuntos. Não sou padre e nem de padre eu gosto.

Dona Marilda insistiu

– Mas prefeito o senhor não poderia pelos menos reconstruir o muro do cemitério, fazer uma limpeza, pintar, deixar tudo bonito e acabar de uma vez por toda com essa história de barragem? É só isso que o povo quer. Se isso não for feito o senhor vai perder as eleições. Pode escrever.

O prefeito perdeu as estribeiras

-Perder para o miserável do João Rufino. Isso jamais vai acontecer. Aquele tatu peba, aquele ruduleiro de vazante, filho de uma quenga, não ganha de mim é nunca. E tem mais se a distinta dona quer saber. Não tenho verbas para reformar cemitério, os defuntos que se virem lá como eles quiserem que eu não tô nem ai pra eles. Não tenho medo de almas do outro mundo.

Depois, mudando de tom e pedindo desculpa por ter perdido o controle, o prefeito fez o seguinte comentário.

-Por favor não me chame de senhor, não carecemos dessas formalidades.

Dona Marilda fez que não ouviu e continuou falando

– E aquela mansão que o senhor está construindo já é fruto da propina dos gringos que estão querendo construir a barragem?. Para isso tem verba agora para cuidar da dignidade dos mortos não tem. Ora tenha santa paciência senhor prefeito.

O prefeito pensou em responder de forma ríspida mas achou melhor não. Ele tinha uma queda por dona Marilda, viúva, bem apessoada e que ainda dava um bom caldo. “Um dia pego essa mulher de jeito e ela vai ver o que é um macho fogoso” pensou ele.

Dona Marilda, que não era besta nem nada, já havia percebido que o prefeito arrastava uma asa para o seu lado. Deu a conversa por encerrada, ajeitou os cabelos, deixou a mostra um pouco da curva dos seios no decote especialmente preparado para aquela data  e  retirou se, sem esconder a contrariedade e a decepção com o prefeito.

Antes porém fez uma advertência

– O senhor sabe que na noite de ontem fez um frio estranho que até urubu cantou e quando urubu canta e porque coisa boa não pode ser. Frio que faz urubu cantar é sinal de tragédia. Se a barragem for feita vai estourar e será pior do que o caso de Brumadinho. Pense nisso.

O prefeito botou os cotovelos na mesa, o rosto sobre as mãos e ficou acompanhando com os olhos   o bamboleio dos quadris de dona Marilda enquanto ela se retirava do gabinete deixando o ambiente perfumado

-Essa dona Marilda me faz perder o juízo, pensou o prefeito..

LEIA AMANHA NOVA CAPÍTULO DESTA HISTÓRIA DO OUTRO MUNDO.

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