QUARTO CAPÍTULO DA MINISÉRIE “A REVOLTA DOS DEFUNTOS” ESCRITA POR ROBERTO DE SENA

06 de mar de 2021

 

CAPÍTULO DE HOJE:

A NOITE DE PAVOR EM QUE ATÉ URUBU CANTOU DE FRIO EM SANTANA DAS PEDRAS

 

No gabinete do prefeito, dona Cândida, a secretária, conversa com o Chefe do Executivo Municipal.

– Prefeito o senhor já tomou conhecimento do que tá correndo no BOCANET em Santana das Pedras?

O prefeito tomou um gole de café, comeu umas petas e respondeu:

– É sobre esta fofoca, esta ingrisia que o povo anda inventando nas esquinas de  que os mortos derrubaram o muro do cemitério e estão falando de dentro das tumbas em organizar uma revolta contra mim por causa da barragem e da reforma do cemitério?

-Exatamente prefeito, inclusive, ontem a noite, soprou um vento muito gelado que eu nunca tinha visto uma coisa dessa aqui em Santana das Pedras.  Eu me embrulhei com quatro cobertas e o frio num passou. Tentei ligar o fogão a gás e não houve meio do bicho funcionar. O fogão a lenha não acendeu nem com gasolina. Me deu um medo danado. Olha foi uma latomia de deixar qualquer um com as pernas tremendo. Foi gato miando de desespero, boi berrando de uma forma diferente, era um berro estranho como se estivesse implorando por socorro, o negócio foi tão feio que cachorro miou e gato latiu para o senhor vê que a coisa foi muito séria. Quando chega a cachorro miar e a gato latir é porque a coisa num tá nada boa. Além disso foi bode berrando de uma forma que eu nunca vi, coruja piando que nem galinha. Um trem de arrepiar. Até agora quando me lembro fico toda tremendo de medo.

O prefeito reagiu

– Ora dona Cândida o povo de Santana das Pedras também acredita em tudo que é vissunagem. Num tá vendo que defunto não vai falar de dentro da cova e ainda derrubar muro do cemitério. Isso só cabe na cabeça de gente doida. A senhora já reparou que aqui em Santana das Pedras em toda casa tem duas coisas?

– Duas coisas? E o quais são essas duas coisas senhor prefeito?

– Então a senhora não sabe? Basta olhar direitinho que a senhora vai comprovar.

– Comprovar o que?

– Em Santana das Pedras em toda casa tem um doido e um pé de manga. Pode olhar. É por isso que o povo fica nesse alvoroço todo por causa de qualquer coisa. Tem doido demais nessa cidade e qualquer besteira provoca essa remulengo todo e fica nesse fuxico no tal do BOCANET (Como os leitores e as leitores já sabem, BOCANET, é um nome jocoso que se deu ao tradicional fuxico, já que em Santana das Pedras, o atraso é tão grande que a cidade ainda não tem internet).

– Sim prefeito, mas e a queda do muro do cemitério? E os tijolos que vieram parar na porta da prefeitura igual folha de papel? E o vento gelado de ontem a noite? E cachorro miar igual a gato e gato latir igual a cachorro. Em toda a minha vida foi a primeira vez que presenciei tal fenômeno.Como se explica tudo isso homem de Deus? O senhor não acha que é um recado?

 

– Colé mané recado. Isso é fácil de explicar. O muro do cemitério tem muito tempo de construído e deve ter sido derrubado por uma ventania que jogou os tijolos aqui na porta de prefeitura. Quanto ao vento frio de ontem a noite deve ser o clima que tá mudando no planeta inteiro, só que o povo daqui é quase tudo analfabeto e não sabe dessas coisas e fica inventando esses bolodórios sem pé nem cabeça. Aqui em Santana das Pedras tudo vira política, até revolta de defunto. Hora onde já se viu uma coisa dessas.

Vociferou o prefeito.

Dona Cândida, que era extremamente católica, alertou o prefeito.

– Sei que o senhor não acredita em almas do outro mundo más aconselho o senhor a tratar o assunto com a máxima seriedade. Não se pode brincar com essas coisas. Mistérios existem. O senhor reparou que neste frio que fez esta noite até urubu cantou como se fosse galinha? Onde já se viu dizer que urubu canta? Urubu cantou de noite. Foi a noite toda urubu cantando. Urubu cantar de noite! De noite? Isso é sinal de tragédia seu prefeito. Pode isso na sua cabeça homem de Deus?  Tome os providenciamentos antes que seja tarde.

Argumentou dona Cândida, pálida de medo.

O prefeito rebateu

– Que nada dona Cândida. Se a gente fosse acreditar em tudo que o povo diz, a gente ficava era doido, num sabe. Eu é que não dou ouvidos para as eguagens desses tabaréus que acreditam em tudo. Onde já se viu dizer que defunto que tá na cova fala como se vivo fosse e ainda derruba o muro do cemitério com a finalidade de liderar uma revolta por causa de um reles boato da implantação de uma barragem e ainda quer que eu gaste dinheiro com melhoria de cemitério? Ora mais tá. A prefeitura não tá gastando dinheiro com os vivos, vai gastar com os mortos? Home quá! E tem mais: essa história de urubu cantar é imaginação do povo. Urubu num canta. Nunca vi dizer que urubu cantasse. Urubu não canta nem quando tá comendo carniça, nem quando tá de barriga cheia. Deve ter sido outro bicho qualquer e o povo por causa do medo ou para aumentar o caso, inventa essas maluquices. Urubu cantar… agora foi que eu vi coisa. Só aqui em Santana das Pedras mesmo. Home quá.

Dona Cândida ficou alguns minutos em silêncio, tomou um gole de café e depois voltou a falar.

– Olha seu prefeito se eu fosse o senhor, eu cuidava logo desse assunto. Esse negócio de barragem não existe. Certo? Não é verdade? Foi o povo que inventou do nada? O senhor não está negociando nenhuma implantação de barragem aqui? Ou está?

O prefeito não gostou da pergunta de dona Candida, sentiu uma ponta de suspeita no ar e respondeu de forma azeda.

– Ora dona Cândida, a senhora já quer entrar num assunto que não lhe pertence e não lhe diz respeito. Secretária não tem que fazer esse tipo de pergunta não, ou pode ser mandada embora a bem do serviço público. Secretária tem que fazer o que for mandado e ficar caladinha, sem dar um pio. Sem entrar em casa de maribondo que é para não se ferrar e ir parar no olho da rua. Tá me entendendo? – disse o prefeito aumentando o tom de voz.

Dona Cândida se encolheu na cadeira mas não deixou de fazer um alerta

– Olha senhor prefeito eu sei muito bem que não devo entrar em certos assuntos e me coloco sempre no meu lugar mas gostaria de que o  senhor se lembrasse do caso de Regi de Branca. Lembra? Regi traiu Branca com dona Laura da Rua de Cima. Branca teve um desgosto profundo, morreu e depois de três meses de morta apareceu debaixo de um pé de jatobá, resfolegou que nem um cavalo bravo na frente de dona Laura e disse que a partir daquele dia ela, dona Laura, ficaria entrevada em cima de uma cama, não seria mulher para mais nada e o sem vergonha do seu marido, iria sofrer uma mudança tão grande que daquele dia em diante deixaria de gostar de mulher e passaria a gostar de homem. Hoje tai o exemplo para qualquer cristão ver, Dona Laura entrevada em cima de uma cama, sofrendo muito e Regi de Branca, que era um garanhão safado, de uma hora para outra virou para o outro lado e passou a gostar de homem. O povo comenta que ele tá amigado com Jovino Orelha de Tatu, diz que tão num amor roxo. Pra o senhor ver que ninguém pode brincar com essas coisas do outro mundo. Isso é assunto muito sério, num sabe. Eu se fosse o senhor tomava minhas providências. É o melhor que o senhor faz para evitar problemas com defuntos. Com esse tipo de gente não se pode brincar. Minha avô já dizia: defunto quando se revolta com um é problema grave, é pau na moleira. Raiva de defunto é muito pior do que raiva de gente viva. Pode acreditar no que estou lhe dizendo.

O prefeito mais uma vez fez pouco caso e levou o assunto na brincadeira.

– Ora dona Cândida, até a senhora, uma mulher esclarecida acreditando nessas crendices populares? Dona Laura tá entrevada em cima da cama por causa de alguma doença grave que ela tem, quanto ao nosso amigo Regi de Branca já devia gostar de homem antes e para ninguém desconfiar vivia dando em cima da mulherada. Agora, que ele num aguentou o resfolego do fogo no oritimbó, resolveu assumir. Não tenho dúvida que foi isso que aconteceu. Isso num tem nada a ver com alma do outro mundo. Se todo homem ou mulher que traísse sofresse vingança de defunto, num tinha mais ninguém vivo na terra. Esqueça essa burragem. A prefeitura não tá dando conta de cuidar nem dos vivos quem dirá dos mortos. Além do mais tem um detalhe:  vivo vota. Já os mortos só votam daquele jeito que a senhora sabe. Daquele jeito…o prefeito piscou o olho e abriu um sorriso malicioso na direção de dona cândida.

A secretária deu um sorriso amarelo e se retirou do gabinete do prefeito.

“O homem tá brincando com coisa séria, fiz minha parte, alertei ele do perigo que ele está correndo com a revolta dos defuntos. Agora não falo mais nada. Aconteça o que acontecer eu vou fazer boca de siri”, murmurou ela caminhando pelos corredores da prefeitura.

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