PP SE DIVIDE SOBRE FILIAÇÃO DE BOLSONARO E TEME IMPACTO EM ALIANÇAS NO NORDESTE PARA 2022

24 de jul de 2021

 

A ida do senador Ciro Nogueira (PP-PI) para a Casa Civil intensificou articulações para a eleição de 2022, além de fortalecer o centrão no governo Jair Bolsonaro. O PP discute a filiação do presidente e mais dois ministros, mas o temor de colocar alianças regionais em risco divide o partido.

Nesta sexta-feira (23), Bolsonaro afirmou que busca uma sigla para controlar. “Estou tentando um partido que eu possa chamar de meu”, afirmou. É esse domínio, porém, que preocupa parte dos líderes do PP, sobretudo do Nordeste.

Bolsonaro já foi filiado à sigla de 2005 a 2016, quando era deputado federal. De acordo com relatos de integrantes do PP e de outras legendas, Bolsonaro fez uma consulta a Ciro Nogueira sobre a possibilidade de se filiar há cerca de três semanas.

Diante da indicação do presidente, o senador decidiu fazer uma sondagem informal ao partido, no que constatou resistências.

Um dos principais obstáculos, segundo aliados, parte do presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP-AL).

De acordo com eles, Lira avalia que a eventual derrota de um candidato do PP no pleito presidencial de 2022 prejudicaria a campanha do congressista pela reeleição ao comando da Câmara, no início de 2023.

Nesse sentido, Lira considera estar mais seguro com Bolsonaro concorrendo à reeleição por outro partido.

Além do fator Lira, parte da bancada do PP teme que a volta de Bolsonaro ao partido prejudique acordos estaduais que estão sendo costurados para 2022, principalmente no Nordeste, e que o mandatário traga consigo deputados aliados que tentarão disputar espaço com nomes consolidados da legenda.

O estado onde o possível embarque de Bolsonaro tende a criar mais atrito é a Bahia. Lá, o vice-governador João Leão (PP) é aliado do governador Rui Costa (PT). A sigla conta com quatro deputados federais baianos.

O comando do PP baiano avalia que a filiação de Bolsonaro pode prejudicar a aliança regional com os petistas. Cenários parecidos ocorrem em outros diretórios nordestinos do PP.

Um deputado da legenda avaliou, sob condição de anonimato, que o eventual ingresso de Bolsonaro só poderá ocorrer se respeitar os acertos locais do PP. Em outras palavras, o PP não terá como mobilizar todos os diretórios estaduais no projeto de reeleição de Bolsonaro.

“Tentei e estou tentando um partido que eu possa chamar de meu e possa, realmente, se for disputar a Presidência, ter o domínio do partido. Está difícil, quase impossível”, afirmou Bolsonaro nesta sexta-feira em uma entrevista à rádio Grande FM, de Mato Grosso do Sul.

“Então, o PP passa a ser uma possibilidade de filiação nossa”, completou o presidente.

Tanto parlamentares do PP que apoiam o ingresso de Bolsonaro como os que se opõem concordam em um ponto: se optar pela sigla, o presidente terá de se curvar ao comando partidário atual.

Além de Ciro Nogueira controlar a estrutura nacional, não tendo nenhum interesse em ceder poder a Bolsonaro, o PP nos estados reúne interesses diversos, e os diretórios locais já estão ocupados.

A expectativa é que o partido que acabe recebendo o presidente também abrigue deputados aliados e os filhos do mandatário com mandatos federais: o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

Por isso, o xadrez regional é outro obstáculo para a chegada de Bolsonaro. Qualquer tentativa do grupo bolsonarista de tomar o controle de diretórios estaduais encontraria forte resistência no PP, alertam congressistas.

As disputas internas por poder foram as responsáveis por fazer naufragar a filiação de Bolsonaro ao nanico Patriota. O cenário tende a se repetir no PP, mas em uma escala muito maior.

Hoje, o partido tem 41 deputados federais, uma das principais forças na Câmara. No Senado, são sete membros.

Integrantes da legenda afirmam que a força do PP decorre do seu tamanho e influência no Congresso. Portanto, o foco das eleições de 2022 deverá ser o aumento da bancada tanto na Câmara como no Senado.

Congressistas esperam que essa seja uma das ações de Ciro Nogueira à frente da Casa Civil: dar aos candidatos do PP as melhores condições para vencer as disputas no Legislativo federal.

No planejamento para fortalecer o tamanho da bancada em Brasília, Ciro negocia ainda a filiação de ao menos dois ministros de Bolsonaro. Estão avançadas as conversas para a entrada do titular das Comunicações, Fábio Faria (hoje no PSD), e da Agricultura, Tereza Cristina (hoje no DEM).

Hoje deputados federais licenciados, ambos têm planos de disputar uma vaga no Senado por seus estados, Rio Grande do Norte e Mato Grosso do Sul, respectivamente.

Faria também é lembrado como um possível candidato a vice na chapa liderada por Bolsonaro.

Conselheiros do presidente da República opinam que a campanha de reeleição será difícil e que ele precisará de uma estrutura de campanha mais profissional do que em 2018.

Nesse sentido, eles também contam com Ciro Nogueira para liderar as costuras partidárias necessárias para que Bolsonaro tenha tempo de televisão e apoio nos estados.

Bolsonaro e Nogueira devem ter uma conversa na próxima segunda-feira (26). A expectativa é que a nomeação seja confirmada após a reunião.

Ao trazer o senador para o coração do governo, Bolsonaro sela seu casamento com o centrão —grupo de legendas fisiológicas que, na campanha de 2018, era frequentemente criticado pelo então presidenciável.

O episódio que marcou o discurso contra a velha política na campanha foi protagonizado pelo atual ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), Augusto Heleno. “Se gritar pega centrão, não fica um, meu irmão”, cantou o general num ato partidário de 2018. Em sua versão, ele canta “centrão” no lugar de “ladrão”, que consta na letra original composta por Ary do Cavaco e Bebeto Di São João.

Pouco mais de dois anos depois, o discurso mudou radicalmente. “Eu nasci de lá [do centrão]”, afirmou Bolsonaro nesta quinta-feira (22), também em entrevista. “Eu sou do centrão.”

A aproximação do chefe do Executivo com o centrão ocorre em um momento de extrema fragilidade do governo, quando Bolsonaro se vê ameaçado por mais de cem pedidos de impeachment e pelo avanço da CPI da Covid, que tem jogado luz sobre supostos casos de corrupção na gestão.

Além disso, o presidente vem assistindo a uma escalada de impopularidade.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), hoje seu principal adversário, ampliou vantagem nas intenções de voto para 2022 e cravou 58% a 31% no 2º turno, segundo o mais recente Datafolha.

Para levar Ciro Nogueira para o governo, Bolsonaro teve de deslocar o general Luiz Eduardo Ramos para a Secretaria-Geral, e o atual titular da pasta, Onyx Lorenzoni, para o Ministério do Emprego e da Previdência, que será recriado a partir de um esvaziamento do Ministério da Economia, a superpasta de Paulo Guedes.

Na entrevista desta sexta, Bolsonaro disse que a medida provisória que criará a pasta, permitindo o rearranjo na Esplanada dos Ministérios, já está pronta, mas só deve ser publicada após sua conversa presencial com Ciro. Inicialmente, a expectativa era que o texto fosse publicado nesta sexta.

Um dos objetivos da troca é organizar a base do governo e dar mais visibilidade a ações de Bolsonaro que serão tomadas daqui em diante, como a reformulação do Bolsa Família, considerada peça-chave para a campanha à reeleição em 2022.

Hoje o governo Bolsonaro tem 22 ministérios, 7 a mais do que os 15 prometidos na campanha eleitoral de 2018. Sob a gestão de Michel Temer (MDB), seu antecessor, eram 29 pastas.

A administração atual chegou a ter 23 órgãos com status de ministério. Porém, o Banco Central perdeu este status com a aprovação de sua autonomia.

 

Ricardo Della Coletta, Julia Chaib e Daniel Carvalho, Folhpress

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