PERMANÊNCIA DE GUEDES COLOCA BANCOS E EMPRESAS EM LADOS OPOSTOS

28 de nov de 2020

 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, sempre foi considerado por boa parte do mercado brasileiro como o fiel da balança do governo de Jair Bolsonaro. Agora, as coisas parecem não ser mais assim.

A reportagem ouviu empresários de diversos segmentos e as opiniões divergem, dependendo do setor.

Industriais, por exemplo estão divididos com relação ao desempenho do ministro.

Um grande empresário do ramo, que pediu anonimato, disse que a demora em entregar as reformas prometidas tem tirado a credibilidade do ministro.

Essa mesma pessoa afirmou que já participou de diversas reuniões com Guedes e que ele não escuta as propostas feitas pelo empresariado. Segundo ele, o ministro abre as reuniões dizendo que vai falar rapidamente, mas fala por mais de uma hora e não ouve ninguém.

Ele também afirma que tem sentido a rejeição a Guedes aumentar entre seus pares. E que vê dois nomes que poderiam ocupar o seu lugar: o também ministro Rogério Marinho (Desenvolvimento Social) e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

Horácio Lafer Piva, da Klabin, tem uma opinião parecida. Para ele, Guedes é uma pessoa inteligente e preparada. “Mas ele se entrega ao autoengano desde o início da gestão, com a ilusão simplista das privatizações e crescimento”, diz o empresário.

Segundo Piva, o ministro focou urgências quando deveria ter privilegiado propostas firmes de reformas e ajuste fiscal.

Geraldo Rufino, da JR Diesel, discorda dos outros dois empresários. Para ele, Guedes é um dos ministros que mais tem feito ações em prol dos empresários. “Não é ele que está atrasando. Primeiro é que tem que passar pelo congresso, e, para ajudar, a pandemia atrasou tudo e depois ainda vieram as eleições”, diz o empresário.

Para Rufino, a atuação de Guedes é motivo de aplausos.

“Graças a iniciativa do modelo de economia que eles estão implantando, estamos deixando de ser reféns desse sistema escravocrata dos bancos. Meia dúzia deles publica lucros absurdos e quebra as empresas por qualquer motivo”, afirma.

Outro industrial citou a agenda no mercado financeiro, crítica aos juros baixos, por exemplo, como um dos motivos para a insatisfação. No mercado financeiro, aliás, a insatisfação é praticamente generalizada.

Os investidores criticam a falta de jogo de cintura do ministro e a necessidade de uma melhor relação com o Congresso.

“De efetivo mesmo, não vimos muita coisa. Vimos a reforma da Previdência passar, mas com muita dificuldade, e algumas alterações que não levaram a tudo que foi prometido”, afirma Marcelo Serrano, sócio fundador da Unnião Investimentos.

A eventual dissonância de Bolsonaro também é um fator crítico para o setor financeiro, especialmente quanto ao auxílio emergencial.

“Enquanto Guedes estiver no poder, teremos a certeza de nenhuma grande mudança de posição dentro da política econômica e o vemos como peça fundamental, mas, a cada dia que passa, ele tem menos força para o ajuste fiscal e na negociação das reformas. Não é porque o Guedes é uma figura relativamente fraca que o próximo fará a diferença. Quem enfraqueceu Guedes foi o Executivo”, diz Yuri Cavalcante, sócio da Aplix Investimentos.

A saída de Guedes do cargo é considerada pelo setor desde que o ex-juiz Sergio Moro deixou o comando do Ministério da Justiça, em abril.

“O mercado está fazendo uma adaptação para a eventual mudança no ministro da Economia, que precisa ter jogo de cintura e negociar com o Congresso. Já houve épocas em que Guedes era insubstituível”, afirma Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos.

Outro ponto visto como negativo para o mercado é o fato de Guedes defender a possibilidade de se vender uma parcela das reservas internacionais do Brasil em dólar para pagamento da dívida pública.

Segundo o ministro, ter uma reserva de US$ 400 bilhões ou US$ 500 bilhões é necessário quando o real está sobrevalorizado, o que não estaria ocorrendo atualmente. Hoje, as reservas internacionais do Brasil estão próximas a US$ 350 bilhões.

O ministério da economia também foi alvo de críticas quando o governo sugeriu financiar o Renda Cidadã com recursos de precatórios (dívidas do governo cobradas pela Justiça) e do Fundeb (fundo para a educação), fora do teto de gastos, sob o qual está o Bolsa Família.

Entre os nomes citados pelo mercado como possíveis substitutos do ministro estão Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro Nacional, e Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, vistos como liberais com boas relações com o Congresso.

“Se fosse o presidente do BC incomodaria menos. Ele tem tido sucesso em defender reformas”, diz Cruz, da RB.

Na quinta (26), Campos Neto afirmou que o Brasil precisa ganhar credibilidade a partir de reformas e de um plano que mostre que o país está preocupado com a dívida pública.

Horas depois, quando lhe foi perguntado sobre as afirmações do chefe da autoridade monetária, Guedes rebateu. “O presidente Campos Neto sabe qual é o plano. Se ele tiver um plano melhor, pergunte a ele qual o plano dele, qual o plano que vai recuperar a credibilidade”.

Já em Brasília, o clima segue tranquilo. Aliados do ministro da Economia afirmam que Guedes está longe de deixar o posto. A percepção é que ele só sairia do governo junto com o presidente Jair Bolsonaro.

Em conversas com auxiliares, Guedes afirmou que tem vontade de implementar uma agenda liberal no país há décadas —em 1989, ele e suas propostas acompanharam o candidato à presidência Guilherme Afif Domingos, hoje seu subordinado na pasta.

Por isso, aliados afirmam que a presença no atual governo é uma chance que Guedes não pretende jogar fora.

O ministro já protagonizou diversas crises e embates com outros membros do governo. No fim, ele normalmente recebe apoio do presidente. Nesta sexta-feira (27), por exemplo, Bolsonaro afirmou em discurso que Guedes é “insubstituível”.

Uma pessoa próxima ao ministro diz que agentes do mercado começaram a cobrar que Guedes volte a assumir o papel de negociador político do governo, o que não é o seu papel.

Segundo essa fonte, o Palácio do Planalto tem sua área de articulação e construiu um grupo de aliados no Congresso, estratégia que Guedes não pretende furar para negociar medidas por conta própria.

Embora o ministro ressalte que projetos importantes foram votados em meio ao período eleitoral, como a autonomia do Banco Central e a lei de falências, técnicos afirmam que a pauta só está andando no Senado.

Apesar de ainda esperarem “surpresas positivas” neste ano, eles têm a avaliação de que a pauta dos deputados só deve ser destravada após a eleição da mesa diretora da Câmara, em fevereiro.

Sobre críticas de agentes de instituições financeiras, auxiliares de Guedes avaliam que eventual saída do ministro do governo geraria um forte baque no mercado, especialmente porque a ala política não tem um comprometimento firme com a agenda fiscal e liberal.

 

Folha de S.Paulo

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