LEIA AGORA O QUINTO CAPÍTULO DA NOVELA, O PREFEITO QUE ACABOU A ELEIÇÃO E SE DECLAROU REI

06 de abr de 2020

King sitting on the throne illustration

NOVELA ESCRITA POR ROBERTO DE SENA

 

NESTE CAPÍTULO SE CONTA A INSTALAÇÃO DO REINADO, A FESTANÇA E AS DURAS LEIS PARA BANIR DEFINITIVAMENTE A DEMOCRACIA DE SANTANA DAS PEDRAS.

Como não poderia deixar de ser a instalação do reinado foi uma acontecimento histórico em Santana das Pedras. Segundo o prefeito, um movimento cívico jamais visto em qualquer lugar do mundo. O dia amanheceu com a população sendo acordada por uma queima de fogos mais forte do que a da virada do ano no Rio de Janeiro. Depois uma banda de música, vestida a caráter, percorreu as ruas e praças. Escolas desfilaram na principal avenida recebendo os aplausos da população. Detalhe: os alunos e professores usavam roupas como as que eram usadas no século 18. O clima era de alegria. No Salão Nobre da Prefeitura, exatamente as  9 horas da manhã, foi feita leitura do decreto que mudava o regime de democracia representativa para uma monarquia hereditária. O decreto foi lido pelo juiz da cidade e dizia o seguinte:

Pelo presente decreto fica o município de Santana das Pedras elevado a categoria de Reinado de Santana das Pedras.

Art 1 – O prefeito passa a ser o Rei de Santana das Pedras sendo autoridade suprema outorgada pelo criador.

Art 2 -Ninguém poderá contestar e nem criticar o rei. Quem assim proceder será enforcado em praça pública e a família pagará a despesa da execução

Art 3 – Todos os cidadãos e cidadãs de Santana das Pedras, doravante denominados súditos de vossa majestade, pagarão tributo ao rei para manutenção das despesas do palácio. Aquele que se recusar será enforcado em praça pública.

Art 4 –  O Rei declara que a terra é quadrada e todos seguirão esta verdade.

Art 5- Fica determinada também a excomunhão daqueles que não seguirem os preceitos religiosos. Os que forem excomungados não poderão comprar no comércio, ter conta em banco, almoçar em restaurante, frequentar lugares públicos, todos os bens lhes serão tirados e nem pode conversar com qualquer pessoa ainda que seja da família. Quem ajudar um excomungado será considerado cúmplice e sofrerá as mesmas penas.

Art 6 – Homem casa com mulher. Mulher casa com homem. Qualquer outra forma de união será considerada alta traição e tentativa de desmoralizar o reinado. Os culpados serão enforcados.

Art 7 – A família e a amada pátria de Santana das Pedras estarão acima de tudo

Art -8 – Fica decretado que a democracia é coisa do demônio e que esta palavra fica para sempre banida do reino de Santana das Pedras.

Art 9 – A ciência para nós tem o mesmo valor de um jegue

Art 10 – O homem não veio do macaco, nem do sapo, nem do bode, nem do caxinguelê. Quem discordar será condenado a morte.

Art – 11 – Os praticantes de religiões diferentes, os adoradores de outros deuses e os ateus passarão por um sistema de conversão. Os que não se converterem serão lançados na cadeia sem misericórdia.

Art – 12 – Quem for de esquerda será banido do reino para não contaminar os demais súditos de sua majestade

Art -13 – Nosso Rei será chamado de Carlos, o bondoso, por ter um coração justo e piedoso

Feita a leitura, palmas explodiram no salão nobre

 

A coroação do rei foi uma cerimônia marcada pela emoção. Os lideres religiosos tiveram a honrosa incumbência  de coroar o monarca sertanejo. Como se fosse jogadores de futebol erguendo uma taça, eles ergueram a coroa e a colocaram na cabeça do soberano, em seguida botaram sobre os  ombros do rei um manto que ia até a altura dos joelhos e pronunciaram as seguintes palavras.

“Em nome do altíssimo e investido dos poderes divinos, sendo o representante de Deus em Santana das Pedras, fica coroado o primeiro rei desta cidade, cujo nome de agora por diante será chamado de Rei Calos I, cuja autoridade não pode ser contestada e cujas ordens devem ser obedecidas sem qualquer questionamento, sendo ele a lei e a ordem desta cidade de Santana das Pedras.”

A orquestra rufou os tambores.

Na sequencia também foi corada a Rainha, dona Laura, a clementíssima  feitas todas as honrarias ao príncipe herdeiro Eduardinho.  O rei ocupou o trono e ao seu lado sentaram a rainha e o príncipe herdeiro. Há quem tenha visto no olhar de dona Cândida, a secretária, uma ponta de ciume da primeira dama. Mas isso é só conversa do povo e não vale a pena levar pra frente estas fofocas envolvendo sua majestade.

Terminada a coroação, o rei procedeu,  o seu primeiro discurso

– Este é um momento histórico na vida de Santana das Pedras. Nossa cidade, a partir deste momento, abandona definitivamente aquele regime produzido pele demônio, chamado democracia, acaba com eleição onde o vivente era eleito para um cargo e dai a quatro anos, se assim o povo entendesse, poderia perder aquele mesmo cargo e ficar sem os privilégios que altos dignatários da nação devem ter por ser direito divino. Este tormento acabou. Eu agora sou rei  de Santana das Pedras e agora não tem mais o pesadelo das eleições  para me tirar do cargo. Governarei até o último dia da minha vida.  Este cargo será passado para o meu filho que passará para o filho dele e assim sucessivamente. Deixamos para trás este triste capítulo   que foi o tempo da democracia e o flagelo de perder eleição. Derrota nas urnas nunca mais. O nosso povo escolheu de forma democrática, através de um plebiscito o sistema monárquico   que é o regime  deixado por Deus, conforme consta do livro sagrado e vem deste os tempos remotos  e que a esquerda – que não acredita em Deus, tentou substituir o sagrado reinado por essa tal de democracia que nunca deu certo e que tem sido a responsável pelo Brasil continuar sendo um país de terceiro mundo. Santana das Pedras a partir de hoje passa a ser uma nação de primeiro mundo por ter um rei, assim como a Espanha, a Inglaterra, entre outros países desenvolvidos.  É com muita emoção que  eu tenho a honra de entrar para a história como o primeiro rei legitimamente coroado em Santana das Pedras, tendo as bênçãos de todas as religiões aqui irmanadas. Isso quer dizer que represento o poder divino na terra e que não poderei perder o poder jamais, a não ser quando eu morrer e, como eu já disse e volto a repetir,  quando isso acontecer o meu filho, o príncipe herdeiro que está aqui ao meu lado juntamente com a rainha minha esposa, será empossado rei e quando ele morrer, o trono será herdado pelo filho dele. É assim que manda o livro sagrado e não como prega essa tal de democracia, o regime dos hereges, dos que não temem o altíssimo, dos que querem o fim da família, o casamento de homem com homem, de mãe com filho, de filho com pai, os que querem a destruição da sociedade, aqueles que pregam a igualdade, a distribuição de terra, os que defendem os direitos humanos. São esses degenerados que inventaram esta tal de democracia para tomar o poder de homens nobres como eu e minha família. Mas agora com a proclamação do reinado em Santana das Pedras, esse tempo triste fica no passado. Aproveito a oportunidade para incentivar os prefeitos de outras cidades vizinhas a também deixarem de lado essa praga chamada democracia e também instalarem um reinado em suas cidades e nunca mais vocês passarão pelo infortúnio de perder uma eleição. Quero dizer que o meu reinado será de prosperidade e bonança mas desde já deixo claro que não será tolerado desobediência as ordens do rei, e aquele que criticar o rei incorrerá no gravíssimo crime de lesa majestade e será condenado a forca em praça pública e a família pagará todas as despesas com a execução, inclusive o salário do carrasco e do coveiro. Cumpra-se o que está escrito.  Agradeço a todos que vieram de outras plagas para acompanhar a implantação do Reinado de Santana das Pedras e participarem conosco deste dia histórico. Tenho dito.”

A multidão,  vestida como se estivesse no século 18, aplaudiu de pé. A orquestra mais uma vez rufou os tambores e formou-se uma imensa fila de bajuladores para cumprimentar o rei. Inclusive prefeitos de cidades vizinhas também compareceram e trouxeram presentes ao monarca. Todos foram assistir aquela experiência inusitada pois, se desse certo em Santana das Pedras, eles, em breve, também decretariam o reinado em suas cidades e ficariam livres das disputas eleitorais e das temidas derrotas nas urnas e ainda teriam a oportunidade de condenar os seus adversários a forca.

O mestre de cerimônia do monarca anunciou que agora seria dado posse pelo soberano aos Nobres Conselheiros do Rei e também do Conselho Religioso.

O rei foi chamando nome por nome e, com o cetro batendo no ombro esquerdo de cada um, repetia a frase, “Em meu nome eu vos consagro NOBRE CAVALEIRO DO REI”, concluído fez o mesmo com o Conselho Religioso.

Terminada essa parte da cerimônia foi servido um fino coquetel aos presentes. Ninguém sabia que comida era aquela pois no sertão um só vivente não tinha experimentado daquelas iguarias trazidas de terras estrangeiras. Como o rei previra, ninguém gostou mas todo mundo comeu e saiu dizendo que havia gostado muito. “È o que eu digo: todo besta pensa que é sabido sem saber que todo mundo sabe que o sabido é besta” disse o rei no ouvido da rainha.

Dona Cândida, a secretária, observava de longe o Rei cochichando no ouvido da Rainha.

LEIA AMANHÃ O PRÓXIMO CAPÍTULO. OBRIGADO A TODOS PELA ATENÇÃO A ESTE HUMILDE ESCREVINHADOR DO SERTÃO BAIANO.

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