INCOMODADO COM ATAQUES DA FAMÍLIA BOLSONARO, MOURÃO ADMITE QUE PODE RENUNCIAR AO CARGO

26 de abr de 2019

Em público, o presidente Jair Bolsonaro e o vice Hamilton Mourão vivem um casamento sólido, visitado apenas por desavenças ocasionais e amenas, próprias das uniões estáveis e felizes. “Esse casamento é até 2022, no mínimo”, disse Bolsonaro em café da manhã com a imprensa na quinta-feira 25, no Palácio do Planalto. “Continuamos dormindo na mesma cama. Só tem briga para saber quem vai arrumar a cozinha”, divertiu-se Bolsonaro. “Ou cortar a grama”, emendou Mourão. Por trás das alegres metáforas matrimoniais, a realidade que se esconde nos bastidores mostra que, das crises políticas que o atual governo enfrentou até aqui, a mais grave é esta — as hostilidades, amenizadas em público mas incandescentes em privado, entre o presidente e o vice.

As divergências vieram à tona pelas mãos de Carlos Bolsonaro, o Zero Dois, que postou um vídeo na conta do pai no YouTube no qual o guru Olavo de Carvalho desfia críticas impiedosas aos militares — “são incultos e presunçosos”. Seu alvo era claro: o general Hamilton Mourão, a quem o proselitista já chamou de “adolescente desqualificado”. O presidente, mais incomodado com as críticas ao golpe de 64 do que ao vice, pediu que o vídeo fosse retirado do ar. Mas, a essa altura, já estava aberta a temporada de ataques a Mourão. Na saraivada de tuítes que se seguiu ao episódio, o vice foi acusado de se opor às propostas do presidente, de se aliar a adversários, de se aproximar de empresários importantes, de bajular a mídia, de se apresentar como sensato e transigente — tudo isso, segundo Carlos, planejado para que Mourão se viabilize como alternativa de poder.

A questão central é uma só: Bolsonaro avaliza as críticas públicas que o filho tem feito ao vice, acusando-o de conspirar contra o governo? A resposta é “sim”. Ele não concorda com tudo, mas acha que o filho está mirando no alvo certo. “Algumas críticas são justas”, admitiu Bolsonaro na quinta-­feira. Quais? “Não vou entrar em detalhes”, cortou. Desde a postagem do vídeo, o general Mourão começou a cristalizar sua desconfiança de que os ataques de Carlos tinham o aval do presidente. No domingo, o general, cuja aparência sisuda esconde uma personalidade brincalhona, estava calado, triste e até teve picos de pressão. Cercado por familiares, mostrou-se contrariado e disse que, se aquilo continuasse, não descartava a saída extrema de renunciar. “Se ele (Bolsonaro) não me quer, é só me dizer. Pego as coisas e vou embora”, desabafou. Resignado, explicou que é um soldado a serviço da nação. No governo, tudo o que faz, diz ele, é tentar ajudar o presidente, e não o contrário. “O presidente nunca me disse para parar, para não falar com essa ou aquela pessoa. Então, entendo que não estou fazendo nada de errado. Mas se ele quiser que eu pare…”, disse.

Bolsonaro, por sua vez, está convencido do oposto, e já emitiu vários sinais de sua insatisfação com o vice. Na terça-feira 23, durante a reunião do Conselho de Governo, no Palácio do Planalto, alguém elogiou o presidente e declarou que ele vencera sozinho uma eleição difícil, sem a ajuda dos políticos. “Não, teve o Mourão comigo”, Bolsonaro ironizou. Semanas atrás, irritado com algo que não deixou muito claro aos interlocutores, o presidente voltou a censurar o vice. “O negócio é o seguinte: o Mourão é general lá no Exército. Aqui quem manda sou eu. Eu sou o presidente”, afirmou, elevando o tom de voz. Bolsonaro tampouco freou os filhos. Ao contrário, Carlos, depois do vídeo de Olavo de Carvalho, intensificou os ataques (veja o quadro ao lado). O deputado Eduardo Bolsonaro também entrou na roda, declarando que o general realmente precisa ser enquadrado: “O Mourão não foi eleito para ficar dando declarações contrárias às do presidente ou para agradar a uma parte da opinião pública. A função do vice é substituir o presidente em uma eventual ausência dele. Tem de ser um soldado na porta do quartel. Nada mais”. Para o Zero Três, o vice enseja a desconfiança de que ele pode almejar um cargo mais alto da República. “No começo eu ouvia esse papo e achava besteira. Agora, já não sei mais”, afirma.

O gabinete da Vice-Presidência funciona no anexo 2 do Palácio do Planalto, a apenas alguns metros de onde despacha o presidente. É uma sala relativamente modesta, se comparada à de Bolsonaro. É lá que Mourão recebe a imprensa — a quem o presidente acusa de querer boicotá-lo — e mantém as portas abertas aos parlamentares críticos do governo. No início do mês, Mourão recebeu o líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP). A assessoria do parlamentar acionou o gabinete do vice e pediu o encontro. Após algumas horas, a audiência foi confirmada diretamente por Mourão, que, atencioso, ligou para o senador e marcou a reunião para dois dias depois. “Nós conversamos com quem tem sensatez para conversar”, diz o senador, um opositor feroz ao governo, ao expor o motivo de ter procurado o vice, e não o presidente, para discutir uma agenda de melhorias de infraestrutura em seu estado. Ao fim do encontro, Mourão passou seu contato pessoal ao parlamentar e colocou-se à disposição.

Na segunda-feira, o vice recebeu a deputada Perpétua Almeida, do PCdoB. Ela foi pedir a Mourão apoio para aumentar a proteção nas fronteiras do Acre e para ajudar a destravar a proposta de criação de um escritório do Banco do Brics (grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) no Brasil. Na reunião, encontrou um vice-­presidente receptivo, que lhe confidenciou ter uma prima, Arminda Mourão, ex-filiada ao PCdoB. Entre risos, Mourão contou que a prima tentou convencê-lo a ingressar no partido. “O vice-­presidente entende a liturgia do cargo que está ocupando. É um democrata”, disse Perpétua a VEJA.

Até aliados do governo, que têm esbarrado em dificuldades para falar com ministros e com o próprio presidente, batem à porta de Mourão. O deputado de primeiro mandato Márcio Labre (PSL-RJ) procurou o vice dizendo ser seu fã. Em uma conversa de quarenta minutos, eles falaram de política a pesca, e chegaram a tratar sobre as declarações do vice-presidente. Ao parlamentar, Mourão explicou que, quando entrou no Exército, foi instruído a ser sincero e a sempre falar o que pensava. “Com o Bolsonaro é a mesma coisa. Enquanto não recebo uma diretriz, mantenho pública a minha opinião pessoal”, ponderou. É essa desenvoltura que tem catalisado as desconfianças do presidente e de alguns aliados sobre as verdadeiras intenções do vice.

Em um governo tão sectário na política e na ideologia, o amplo leque de ações do vice soa como provocação — ou, o que é pior, como conspiração. Para piorar, os petardos que mantêm aceso o conflito costumam ser disparados por assessores que, às vezes mais realistas que o rei, apostam no confronto. Tanto que foi Carlos, e não Bolsonaro, quem publicou o vídeo na conta do pai. E foi o coronel Itamar, que cuida da rede social do vice, quem curtiu um comentário da jornalista Rachel Sheherazade, do SBT, que enfureceu Carlos. São os peões da intriga palaciana.

Há duas semanas, o deputado Marco Feliciano (PODE-SP), vice-líder do governo, protocolou um inusitado pedido de impeachment de Mourão. Mas, curiosamente, ele mesmo admite que não quer a cassação do vice. “Foi um tiro de alerta. Eu não mirei o coração do Mourão. Eu mirei os ouvidos — os dele e os de todos os que estão com ele. Agora, aqueles que frequentam o gabinete podem ser vistos como conspiradores”, afirmou o parlamentar a VEJA. Antes de apresentar o pedido, Feliciano foi ao Palácio do Planalto para consultar o presidente sobre sua ideia. Acompanhando a audiência estava o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, amigo de Mourão. O parlamentar e o presidente conversaram a respeito da reforma da Previdência e, depois de alguns minutos, Feliciano pediu para ficar a sós com Bolsonaro. O general saiu da sala, e Feliciano então falou da proposta de impeachment. Explicou que questionaria o decoro de Mourão. “Nos 100 dias de governo foram 100 dias de vice alfinetando o presidente”, disse. O presidente não fez nenhum comentário. Feliciano tomou o silêncio como sinal verde. O pedido de impeachment já foi devidamente arquivado pelo presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia.

No café da manhã de quinta-feira, Bolsonaro e Mourão sentaram-se lado a lado, em cena de harmonia. Fizeram questão de dizer que Carlos tem o direito de expressar sua opinião. Mourão chegou a comentar que o fato de Carlos ser filho do presidente não o obriga a ficar “de bico calado”. Mas é uma ingenuidade a noção de que a crítica do filho do presidente seja comparável à de qualquer político. Ainda mais quando o referido filho teve papel fundamental na campanha e exerce influência indiscutível sobre o presidente. “Ele é, de longe, o mais influente dos filhos”, confirma um ministro da ala dos auxiliares mais poderosos do governo.

Na história brasileira, não são raros os conflitos entre titular e vice. O marechal Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente da República, desconfiava, com razão, de Floriano Peixoto, que assumiria seu lugar nove meses depois da posse. Café Filho conspirava contra Getúlio Vargas. João Goulart não dava trégua a Jânio Quadros. Na redemocratização, Itamar Franco voltou-se contra Fernando Collor. Dilma Rousseff acreditava que Michel Temer era o vice mais discreto e servil com que um presidente poderia contar. Deu no que deu. Na crise de agora, seria útil, para a paz política, que as hostilidades ficassem dentro de casa — como acontece nos casamentos de sucesso. Diz o cientista político e colunista de VEJA Sérgio Praça: “Basta Bolsonaro manter-se vivo que Mourão não terá importância. Ele tem de seguir a sua agenda e evitar essas crises à toa”.

 

Via: Veja

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