HISTÓRIAS POLÍTICAS DO OESTE BAIANO: TARCILO VIEIRA DE MELO E O ELEITOR QUE QUERIA SE APOSENTAR FORA DO TEMPO

12 de set de 2021

 

Roberto de Sena

Me contaram que essa história aconteceu lá pelos meados dos anos 50 do século XX. Tarcilo Veira de Melo, grande nome da política barreirense daquela época, era candidato a deputado federal. Bom de conversa, charmoso, elegante, carismático e muito inteligente, Tarcilo percorria a cidade e a zona rural com muita disposição indo de casa em casa garimpando cada voto do povo  com muita lábia. Quando dava ia de carro e, na maioria das vezes, ia a cavalo, de jegue, mula ou de carro de boi.

Pois bem. Uma certa feita, em uma dessas reuniões de campanha, um cidadão chamou Tarcilo para conversar em particular.

Experiente, Tarcilo já sabia que quando uma pessoa solicita uma conversa em particular a um político, só pode ser para pedir alguma coisa. E lá foi ele conversar com o eleitor num quarto da casa onde  estava acontecendo a reunião.

– Dr. Tarcilo, eu tô muito decepcionado com política.  Fiz uma jura que não votava mais em ninguém mas num homem sério como o senhor eu não posso deixar de  votar . Meu pedido é muito simples: só quero uma coisinha muito fácil de resolver. O senhor só não resolve se não quiser, cê tá me entendendo?

Tarcilo perguntou do que se tratava

– Quero que o senhor me aposente

Tarcilo olhou para o homem. Forte. Saudável, não tinha nem 40 anos e já queria se aposentar?

O deputado estranhou.

– Mas você tem algum problema de saúde?

– Não deputado. Não tenho nenhum problema. Tô muito bem de saúde.

– Mas então por qual razão o senhor quer se aposentar, tão novo assim?

– É o seguinte Dr. Tarcilo: eu sou funcionário público federal mas tenho uma rocinha, tenho um gado, uma plantação de mandioca lá na beira do Rio de Ondas e quero me dedicar a isso. Preciso cuidar das minhas coisinhas num sabe. Num quero mais ser funcionário público de jeito nenhum. Bater ponto todo dia num é comigo, isso num ficou pra mim não. Mas também num posso perder o salário. Resolve essa aposentadoria pra mim. É fácil. Eu sei que o senhor pode. É só querer.

O deputado olhou para um lado, olhou para o outro, coçou a cabeça e pensou em dizer que não tinha jeito a dar, que a lei não permitia, que isso era corrupção e que ele – Tarcilo – era contra todas as formas de corrupção. Mas antes que Tarcilo dissesse qualquer coisa, o eleitor deu a seguinte informação:

– Lá em casa são 50 votos. Eu sou o chefe da família, onde eu mandar todo mundo vota. É voto maciço, ligeirinho, todo mundo me segue. Onde eu votar todos votam.

Esse tipo de conversa é música nos ouvidos de qualquer político. Tarcilo engoliu o que ia dizer, deu uma de João Sem Braço e disse que, assim que fosse eleito, iria lutar para aposentar o homem. Afinal não podia perder aquela ninhada de votos. Veja bem: O deputado não prometeu que aposentaria o sujeito, disse que ia lutar, ou seja ia tentar.

– Pois Dr. Tarcilo nós vamos votar no senhor por o senhor ser um homem sério, nós num guenta mais votar em corrupto, em ladrão, a gente quer é homem da sua qualidade. Homem honesto e cumpridor da palavra.

Tarcilo ficou encabulado com o raciocínio enviesado do eleitor. O cara tava pedindo para ele dar um jeito de conseguir uma aposentadoria ao arrepio da lei e ainda dizia que queria político honesto? “Esse País não tem jeito não”, pensou o parlamentar desanimado com a situação.

Para encurtar a história Tarcilo se elegeu e foi morar no Rio de Janeiro que, na época, era a capital do Brasil.

Nem bem o deputado toma posse e, de surpresa, o cidadão que queria se aposentar aparece no Rio de Janeiro e foi direto procurar Tarcilo.

– Seu deputado vim aqui promode o senhor fazer a minha aposentadoria conforme nós combinamos na campanha. Não foi isso mesmo?

O deputado, constrangido com o negócio, pediu ao sujeito que desse um tempo, que ele tinha acabado de tomar posse e ainda estava se inteirando das coisas na capital.

“O senhor retorne à Barreiras e aguarde até que eu arranje uma forma de resolver o problema pelas vias legais. Quando tudo estiver resolvido eu mesmo mando lhe avisar. Não precisa vir de Barreiras para o Rio de Janeiro. É uma viagem longa e fica muito caro”, argumentou o parlamentar.

Momentaneamente convencido, o homem veio embora.

Quando Tarcilo pensa que cidadão havia se esquecido do compromisso, olha o homem de novo no Rio de Janeiro. E desta vez só tinha a passagem de ida e Tarcilo teve que bancar tudo, hospedagem, comida, passeios pela cidade maravilhosa, passagem de volta para Barreiras, etc e tal. Com seu famoso jogo de cintura, Tarcilo mais uma vez convenceu o rapaz a retornar a Barreiras e aguardar até que ele providenciasse a aposentadoria.

Mas não adiantava.

Daqui a pouco o sujeito tava de volta. Foram tantas viagens que, em pouco tempo, o homem já tinha se tornado conhecido na Câmara dos Deputados. Tarcilo já não aguentava mais aquela pressão miserável. “Se eu soubesse que esse cabra iria me dar tanto trabalho eu tinha dispensado o voto dele. Ô voto que tá me dando  dor de cabeça! Tem eleitor que é pior do que agiota,” pensava o saudoso deputado barreirense.

O caldo entornou de vez quando, num belo dia, o homem teve que ficar hospedado na casa de Tarcilo. Bebeu todos os vinhos do deputado, pintou e bordou. A mulher de Tarcilo ficou uma arara e ordenou que ele se livrasse daquele aborrecimento o mais rápido possível.

O deputado então tomou uma decisão. “Vou dar um jeito de aposentar este danado é hoje de qualquer jeito. Só assim essa praga me deixa em paz”

O deputado pensou, pensou e do seu privilegiado cérebro brotou uma ideia luminosa.

– Olha amigo vamos fazer o seguinte: eu vou levar você direto ao ministro, você vai chegar com a cueca por cima da calça, com uma parte da calça cortada no joelho, com a gravata voltada para as costas, com um pé calçado em uma bota e outro em uma chuteira, com uma espora no pescoço, com o cabelo cortado só em uma banda da cabeça, vai cumprimentar o ministro, dizer que tá com dor de barriga e, em seguida, você desce as calças, sobe na mesa do ministro e diz que vai fazer cocô em cima da mesa. Cê faz isso e o resto cê deixa comigo.

– Tem que ser assim mesmo deputado?

– Sim. Pra conseguir essa aposentadoria sua só se for desta forma. Não há outro caminho. Faça o que eu tô dizendo e pode confiar.

E assim foi feito.

Naquele dia o deputado foi a uma audiência com o ministro quando, de repente, entra o cidadão, naquelas condições que vocês já sabem. Vestido do jeito que Tarcilo havia orientado, parecendo mais um espantalho do que um ser humano. Todo desgrenhado. Tarcilo deu o alerta: “Ministro o governo cometeu um crime que pode custar caro, como é que deixa um homem nestas condições trabalhando? O homem tá doido, doido, doido. Num pode trabalhar, tem que ser aposentado urgente. Um funcionário trabalhando nestas condições pega mal para o governo. Manda aposentar este homem pelo amor de Deus ou a oposição vai cair toda em cima de nós. Se Carlos Lacerda descobre um negócio desses vai ser um escândalo.”

O eleitor (ou melhor: o espantalho), nem pestanejou, seguiu a risca as instruções de Tarcilo e foi logo dizendo “Bom dia ministro, me desculpe mas é que eu cheguei agora lá do Oeste Baiano onde sou funcionário do governo e eu tô me vendo aqui com uma dor de barriga danada. Daquelas que não esperam. O senhor me desculpe, não dá tempo eu ir ao banheiro,  eu vou cagar aqui em cima da sua mesa”. E dito isso,  pulou em cima da luxuosa mesa do ministro, baixou as calças, se agachou e começou a se espremer.

O ministro, horrorizado com a cena dantesca, saltou da cadeira, ficou a uns 10 metros de distância, soltou um grito desesperado, chamou o secretário e ordenou;

– Esse homem é doido, olhe a situação dele. Tá  defecando na minha mesa em cima de documentos importantes. Isso é uma desmoralização para mim e para o governo. Bata a aposentadoria dele agora. Aposente o homem, ligeiro. Vamos logo com isso.

O secretário ainda tentou argumentar

– Mas ministro, é preciso chamar o médico para fazer o laudo.

Descontrolado o ministro gritou ainda mais alto

– Que laudo médico que nada! Cê num tá vendo que o homem é doido de pedra, olha o que ele tá fazendo em cima da minha mesa. Num precisa de médico pra saber que o homem num bate bem da bola. Até eu que num sou médico sei que este homem tá doente da cabeça. Datilografe um documento urgente aposentando o homem. Datilografe agora ou você será demitido. Num precisa de médico não, bata logo, traga o carimbo que eu já assino e ele já sai daqui aposentado como louco. Ande rápido. Isso é uma ordem.

Resultado: O homem voltou a Barreiras com a aposentadoria debaixo do braço e, finalmente, deixou Tarcilo em paz.

E o ministro ainda agradeceu a Tarcilo que ficou com a moral lá em cima.

– Deputado muito obrigado por esta iniciativa! É de homens como o senhor que precisamos para que o nosso governo dê certo. O senhor fique atento se acontecer outros casos como esse lá em Barreiras, faça o que o senhor fez agora e nos avise imediatamente. Não podemos permitir que pessoas que não estão bem das suas faculdades mentais façam o governo perder o crédito com à população.

– Estou atento ministro. Pode contar comigo. Já pensou se sai no jornal do Carlos Lacerda uma manchete mais ou menos assim: governo na lama, funcionário defeca na mesa do ministro. Seria o fim do nosso governo, por isso estou atento nos mínimos detalhes. Pode acreditar seu ministro. Sou os olhos do governo na região.

Se despediram com um caloroso abraço e Tarcilo saiu da sala e ao chegar a rua deu boas risadas do caso.

Quanto ao eleitor, voltou para Barreiras, viveu longos anos aposentado e cuidando de sua terra na beira do Rio de Ondas. Quando alguém falava de política ele estufava o peito e dizia. “Para mim só existe um político sério e que cumpre a palavra. Tarcilo Vieira de Melo. O resto não presta.”
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