EM TOUR POR BRASÍLIA, LULA AVANÇA SOBRE ALIADOS DE BOLSONARO EM ARTICULAÇÕES PARA AS ELEIÇÕES DE 2022

06 de maio de 2021

 

Em Brasília pela primeira vez desde que retomou seus direitos políticos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se lançou numa ofensiva para as eleições de 2022 que avança sobre aliados do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Desde segunda-feira (3), o petista tem tido conversas no “bunker” que montou em um hotel na região central da capital federal, a apenas três quilômetros do Congresso Nacional. Ele vem falando não apenas com nomes mais à esquerda do espectro político.

Nesta quarta-feira (5), recebeu o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ) e o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab. Nesta quinta (6), tem encontro marcado com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

Maia chegou ao hotel pouco antes das 9h e teve uma conversa de quase duas horas com Lula.

O deputado e o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, devem deixar o DEM e ingressar no PSD —já houve a possibilidade de irem para o MDB e para o PSDB. Os dois, inclusive, têm uma conversa na sexta-feira (7) para discutir a mudança de sigla.

Sem necessidade de esperar a abertura de uma janela para a troca partidária, Paes já sacramentou a mudança para o PSD. O anúncio ocorreu no mesmo dia em que o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que é do DEM, prestou depoimento à CPI da Covid no Senado.

Ao optar pelo PSD em vez do PSDB, o prefeito do Rio deixa claro que não está disposto a confrontar Bolsonaro. Sem outra opção no estado, Paes e Maia poderiam, porém, integrar o projeto de uma frente ampla no Rio de Janeiro, unindo partidos anti-Bolsonaro no reduto eleitoral do presidente da República.

Por enquanto, o deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) é o favorito para disputar por esta frente o Governo do Rio de Janeiro, enfrentando o nome que dará palanque para Bolsonaro.

O plano, porém, pode esbarrar nas articulações para a disputa presidencial, já que, assim como o PT não abre mão da candidatura de Lula, o PDT sustenta a de Ciro Gomes.

Potenciais integrantes do grupo no Rio minimizam o impacto da questão nacional. Dizem, por exemplo, que uma composição local pode ter mais de um candidato a presidente. Citam a eleição de Camilo Santana ao Governo do Ceará em 2018. Ele foi candidato pelo PT, mesmo fazendo parte do grupo político dos irmãos Cid e Ciro Gomes.

“Combinamos que essa é uma conversa que vai seguir, mas deve ser feita com mais cuidado aí a partir do segundo semestre, quando a gente começa a discutir a estratégia política eleitoral. O PT está disposto a fazer uma uma frente dentro essa discussão ampla, portanto, não pode chegar impondo candidatura”, disse a presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR).

Logo após a conversa com Maia, Lula recebeu Kassab, que entrou e saiu do hotel longe dos olhos dos jornalistas.

“Lula deixou claro que é candidato à Presidência e disse que vai procurar todas as lideranças, independentemente do partido político”, relatou Kassab, a quem Lula disse estar costurando um projeto para o Brasil. Segundo Kassab, Lula quis ouvir sua avaliação sobre economia e combate à pandemia.

Kassab disse ao petista que a situação é preocupante, mas afirmou que a posição do PSD em relação ao governo é de “independência colaborativa”.

O presidente do PSD, partido que ocupa o Ministério das Comunicações com Fábio Faria, disse a Lula que a sigla terá candidato próprio à Presidência e ao governo de, pelo menos, 14 estados.

O posicionamento de Kassab, que foi ministro das Cidades no governo Dilma Rousseff (PT) e da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações no governo Michel Temer (MDB), é visto como uma tentativa de se consolidar como alternativa de centro para o Palácio do Planalto, além de postergar para o ano que vem qualquer decisão sobre o lado que tomará na eleição.

Com uma candidatura virtual, ele pode se manter próximo a Bolsonaro e, ao mesmo tempo, não se desgastar com Lula até que o cenário eleitoral esteja mais definido.

Nesta terça (4), Lula já havia recebido o senador Otto Alencar (PSD-BA), que disse que vinha apenas dar um beijo no ex-presidente.

Congressistas de centro já relatam uma divisão regional em seus partidos. Políticos do Norte e do Nordeste têm uma predileção por Lula, enquanto os de Sul e Centro-Oeste estão mais ligados a Bolsonaro.

A visita a Pacheco, nesta quinta-feira, tem ares de institucional, mas acontece em um momento delicado da relação entre o senador e a família Bolsonaro.

Filho do presidente da República, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) criticou duramente o Pacheco por ter instalado a CPI da Covid durante a pandemia.

“Rodrigo Pacheco está errando, está sendo irresponsável, porque está assumindo a possibilidade de durante os trabalhos dessa CPI acontecerem mortes de senadores, assessores, morte de funcionários, porque em algum momento a sessão vai ter que ser presencial”, afirmou Flávio na sessão inaugural da colegiado.

Além disso, líderes de partidos de centro passaram a estimular o nome de Pacheco na corrida ao Planalto.

Embora o senador negue a intenção de concorrer à sucessão de Bolsonaro, a cúpula do DEM e líderes de partidos como o PSD o enxergam como potencial candidato e passaram a ventilar a hipótese nos bastidores.

Além de nomes do PT, Lula já conversou com os senadores Fabiano Contarato (Rede-ES), Kátia Abreu (PP-TO), Jader Barbalho (MDB-PA) e Weverton Rocha (PDT-MA), os deputados Alessandro Molon (PSB-RJ) e Freixo e o ex-senador Eunício Oliveira (MDB-CE). Deve ainda encontrar o deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP) na noite desta quarta.

Lula ainda tem aproveitado a semana em Brasília para promover um gesto concreto de oposição a Bolsonaro. Ele tenta criar no Congresso um ambiente favorável ao aumento do valor do auxílio emergencial para R$ 600 até o fim da pandemia.

No ano passado, foram cinco parcelas de R$ 600 e quatro de R$ 300. Foram gastos R$ 293 bilhões para atender 67,9 milhões de pessoas.

Em abril deste ano, o governo começou a pagar quatro parcelas de R$ 150, R$ 250 ou R$ 375. O governo prevê um gasto de R$ 44 bilhões para atender 45,6 milhões de pessoas.

 

Daniel Carvalho/Catia Seabra/Folhapress

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