BARREIRAS: MORRE PINTA MACHADO, UM HOMEM QUE ERA LIBERDADE E POESIA

05 de ago de 2020

Roberto de Sena

Faleceu hoje o nosso filósofo Pinta Machado. Desencarnou. Seguiu para outro plano conforme a crença de cada um. Eu escrevo agora para lamentar a ausência e a falta que fará esse querido amigo. Pinta foi uma figura central na minha formação, no meu gosto pela cultura e na de muitos da minha faixa etária.

Lembro-me que um certo dia, vindo da Escola Polivalente de Barreiras onde eu estudava, fui sacudido por uma voz que saia de dentro da loja de discos Pinta Som – acho que era a única de Barreiras naquele tempo. Dentro da loja Pinta sentado ouvia um disco gravado pelo poeta Ferreira Gullar declamando o POEMA SUJO, um dos mais famosos livros de poesia da literatura brasileira contemporânea. Fique paralisado pela beleza da voz de Ferreira Gullar e pelos versos, quase sem rimas mas belíssimos, que o poeta ia dizendo. Entrei na loja e Pinta, vendo o meu interesse,  falou-me sobre quem era Ferreira Gullar e a importância dele na cultura brasileira. Foi uma epifania em minha vida. Dai por diante fiquei apaixonado por Gullar (E sou até hoje), e fiquei muito grato a Pinta por ter me apresentado um poeta daquela qualidade com uma poesia diferente e de altíssimo nível. Alta voltagem.

Depois desse dia ficamos amigos. Eu passava sempre na Pinta Som e ele, entusiasmado e risonho, me mostrava discos, falava do que de melhor estava acontecendo no Brasil e no mundo em termos de música. dialogávamos muito sobre cultura, arte, poesia, cinema e política. Nos identificamos como seres da mesma tribo e nossa amizade significou uma troca de experiência muito rica para mim, tanto é, que ficou para minha vida toda. Ao longo dos anos, mesmo nos momentos em que, por conta do trabalho, tive que morar fora de Barreiras, nunca nos afastamos. Havia sempre uma forma de encontrá-lo para nossas tertúlias literárias.

Pioneiro em várias atividades, principalmente nas de articulação cultural. Pinta fundou bares famosos como o Berro Dágua, fez o Cine Teatro Boa Vista, em Barreirinhas, ao lado de outros companheiros, escreveu literatura de cordel e fundou o bar Nego Dágua, que ainda hoje existe e marcou época em Barreiras sendo sempre um dos melhores da cidade, privilegiando a boa música e oferecendo um ambiente agradável para todos que gostassem de um bom papo.

Pinta também militou na política ao lado de Jorge e Regina Figueiredo, Bené 70, o saudoso Paulo Holanda e para além disso era um militante da democracia, do meio ambiente, dos direitos fundamentais do ser humano. Um defensor da pluralidade, das causas justas, um homem que nunca parou de acreditar que seria possível construir um mundo melhor para todos. Um adorável rebelde que não se submetia a ditadura que o sistema quer impor na marra sobre a vida das pessoas. Meu filosofo libertário que tantas frases lindas pronunciou em momentos de seriedade mas também em momentos de pura brincadeira.

Não tenho dúvida que, com Pinta Machado, se vai uma parte fundamental da história de Barreiras, daquela cidade ainda pequena, aconchegante, onde quase todos se conheciam, se encontravam e onde muitos faziam da cultura o estandarte da liberdade. Pinta foi um desses e agora, como diria Guimarães Rosa, não morreu, ficou encantado.

Essa é a humilde homenagem que escrevo ainda de mãos trêmulas ao saber, por minha amiga Regina Figueiredo, da partida deste querido amigo. Vá em paz meu irmão. Nós aqui ficamos a espera da nossa vez de também ir. Até um dia querido Pinta Machado. Deus há de lhe receber declamando versos como você tanto gostava. Afinal você sempre foi liberdade e poesia.

 

 

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