ÁGUAS DO OESTE BAIANO – POESIA – ROBERTO DE SENA

25 de fev de 2021

A pátria da água não é somente o Amazonas do poeta Thiago de Melo.

Não é apenas o Pantanal matogrossense do poeta Manoel de Barros.

O Oeste Baiano também é a pátria da água.

Um acervo de rios outorgando ao silencio, a organização das veredas

no arquivo das nascentes.

 

Uma ópera de rios canta no horizonte do Oeste Baiano.

É o êxtase das águas batismais,

águas místicas, eucarísticas, batismo de luz e esplendor

 

Os rios guardam águas em suas algibeiras (as lagoas)

 

O Rio possui cartilagem de pedra e raízes.

De um lado a outro do Oeste Baiano

ouve se a canção das águas nos lábios dos rios

que tem a mesma beleza extrema dos lábios das mulheres

guardiãs dos segredos das águas. As mulheres do  Oeste Baiano

 

Quem vem de Salvador recebe as boas vindas do mítico Rio São Francisco

e uma carruagem de água pode ser vista do alto da ponte na cidade de Ibotirama, onde o sol se derrama.

Braços hospitaleiros de água e beleza seduzem o viajante que vem do Piauí e se depara com as margens do rio em Formosa do Rio Preto.

Na terra se escreve a caligrafia das águas do Oeste.

Quem chega de Minas Gerais é saudado pelas águas festivas e pelo carinho do Rio Carinhanha e do Rio Corrente e guarda nos olhos a magia do sol nascente.

Quem vem de Brasília, Goiás ou Tocantins é envolvido pela geografia do cerrado e guimarãesrosamente, se entrega ao Rio de Ondas e ao Rio Grande.

Esta é a geografia das águas. Os rios formam o comitê de recepção de quem entra no Oeste Baiano.

Para serem ainda mais gentis, os rios convidam os ipês, os jatobás, os cajueiros, os pequizeiros, as bromélias, as orquídeas e todos se juntam em um grande mutirão, construindo as cores que se entrelaçam na aurora formando um painel para além do delírio.

Uma paisagem se sucede a outra, um rio dialoga com outro rio num lamber de línguas que produz encanto. É o sublime trabalho das águas.

No cerrado baiano as águas são subscritas subterraneamente pelo Urucuia, o segundo maior aquífero do Brasil. Válvulas de água que não param de soletrar o nome líquido de todos os rios.

O Urucuia é um armazém de água no ventre da terra.

O sistema Urucuia se estende pelo chapadões dos gerais indo até os limites de Tocantins e Goiás.

São 22.540 quilômetros quadrados de água florescendo dentro da terra. Um estoque de água sangra na boca das manhãs, a canção secreta do subsolo, do sub-silencio.

41 por cento da água subterrânea do Rio São Francisco vem do Urucuia, do reino das raízes e dos micro-organismos cantando no útero morno da terra de onde partem os impulsos elétricos da fertilidade e da verde explosão das plantas na superfície.

As plantas rompem a casca da semente, bebem a luz e se embriagam de sol e sertão.

Ana Júlia Heringer (na época em que esse poema foi escrito ela era diretora do Jardim Botânico de Brasília), informou que o cerrado é a terceira província orquídea do país. São 504 espécies de orquídeas conhecidas até agora.

O som da palavra ORQUÍDEA apresenta uma beleza suave. A palavra parece nascer do pistilo da flor e tem um sabor feminino e nos induz a pensar no belo significado da palavra clitóris, por exemplo.

A flor possui o formato feminino das nuvens, pétalas de orquídeas acendendo o lume da paisagem.

No cerrado os meses sem chuva deixam a vegetação distorcida e seca.

Árvores tortuosas imitando as palavras que escrevo.

A caliandra é outro nome de flor do cerrado. Flor e palavra se entrelaçando.

As sementes são levadas pelos pássaros, pelos ventos e germinam nas chuvas de setembro. A chuva dos cajus.

São os requerimentos escritos na carne da terra. O segundo maior aquífero do Oeste Baiano é o bambui. São centenas de quilômetros quadrados emolduradas e cheias de inscrições rupestres.

Carinhanha e as lagoas do Jacaré, Serra da Saudade e Três Marias. Serra da Saudade parece o lugar onde a chuva faz sexo, onde a chuva procria.

É a casa da chuva. É o lugar onde a chuva se acasala.

A verdade verde vem do útero da terra com o mesmo enigma das águas que se azulam na cabeleiro dos rios.

Mãos tocando violas de água, canções entre libélulas e as bromélias,

acariciando o ventre da terra e a pele das árvores do bosque.

O Oeste Baiano tem 174.298 quilômetros quadrados de chão e água.

Água e chão. Rios e Sertão

Desdobrando-se em folha por folha

Folha por folha tocando os dedos das raízes

Na Boca dos Gerais

nasce a canção das águas

na Forquilha do Rio

Cantada pelos lábios

do Vau da Boa Esperança

e um coral das Três Bocas

repete o refrão hidrográfico .

Na cidade de Barreiras

o Rio de Ondas entra no Rio Grande

igual o homem entrando na mulher

ou a mulher no coração do homem

e os dois rios trocam um abraço molhado de vida

E seguem viagem para a cidade da Barra

a viagem de um rio assemelha-se a viagem do tempo.

Um rio deságua em outro rio

o tempo deságua em outro tempo

“Nenhuma homem se banha duas vezes no mesmo rio”

O tempo não é o mesmo para nenhum ser humano.

Rio e tempo são diferentes no formato,

na maneira de passar e de fluir

um rio cai em outro rio

e o tempo? Em que tempo vai cair?

 

Diferente dos rios o tempo é sem margens.

Ninguém se senta a margem do tempo e fica observando o tempo passar.

O tempo é sem margens.

Lábios de rios

são tão belos quanto os lábios de uma mulher

são tão doces quanto a língua de uma mulher

no dorso da serra

o ipê acena para o rio

um gesto de flor e beleza

de amizade a gentileza

 

Na margem do rio

o buriti abre sua palmeira verde

em saudações de veredas

no impulso das vazantes

 

A água passa diferente dos meses

dentro dos olhos dos camponeses

Água que em todo o Oeste Baiano nasce

e das encostas das serras, de dentro do chão,

mostra a sua face

 

O Oeste Baiano produz 8% de toda água do Brasil

 

Água-flor

Água-folha

Água-fruta

Água-pétala

pele de água

cobrindo o desenho da tarde

 

O amor da terra com as raízes

engravida as árvores.

As árvores enchem o tempo de flor parindo frutas.

O rio brilha e o olhar baunilha

na cintilação das cores

 

Água provocou  delírio

de quem veio lá do Sul

em quem viu tanto verde

em quem viu tanto azul

Os rios do Oeste Baiano são responsáveis por 26 por cento

da vazão de água do Rio São Francisco.

Minuto a minuto entregam água.

Língua a língua,

Boca a boca

o corpo de um rio dentro do corpo de outro rio

é semelhante a palavra dentro de outra palavra.

Rio e palavra. Palavra e rio

Ambos tem o poder de matar a sede

água mata a sede de beber

palavra mata a sede de aprender

 

Ambos tem formato de lonjuras.

O que é longe e o que é perto

é uma derivação no rio e na palavra

 

 

Os rios são minha escola

e me transmitem saber

Sou diplomado em rios

fiz cursos de Rio de Ondas.

Estudei no curso do Rio Grande

em suas imensas salas de água.

Por isso escrevo na água

meu itinerário de silêncio.

 

O poeta de Mato Grosso, Manoel de Barros

tem doutorado em formigas.

Eu tenho doutorado em rios

e apresento o meu diploma de água

minha universidade de veredas,

trago palavras dentro do bocapio

trançadas na palha do buriti

na beira do rio.

 

É tempo de farinhada

forno aceso na madrugada

e as mulheres e os homens

cantando para chamar a alvorada

É a lâmina da palavra

descascando a mandioca

é o fogo da palavra

fritando o aipim

palavra de água

iluminando dentro de mim

 

Grande são os cursos destes rios

no silencio de minha memória.

Água: meu confessionário de segredos.

Rio: Meu refúgio e auto-exílio

 

Existem coisas que o rio não admite

água não estabelece limite

não há protocolo para se chegar a beira de um rio

 

No Oeste Baiano há uma reunião de rios

realizando o congresso das águas

é deste seminário de espumas

que minha canção emerge e brilha da cor dos peixes nas axilas dos rios

O que escrevo é a caligrafia dos rios mesmo que pelo avesso.

O que escrevo é meu Plano Diretor de Bacias Hidrográficas,

geografia física, econômica, política e humana do Oeste Baiano

Este poema é meu estandarte para que não se permita que

os ricos tenham hegemonia sobre as águas e os pobres morram de sede.

 

O que será destes rios que escrevo daqui a 100 anos?

Ainda terão portos?

Estarão vivos?

Estarão mortos?

Escrevo para que homens e mulheres do futuro

tenham mais lucidez do que os homens e mulheres do presente

matar rios é o mesmo que matar gente.

 

Não há máquina de fazer água.

Água se faz dela mesma,

dos elementos do chão,

das profundezas das raízes,

da música das nascentes,

da restauração das veredas,

do reflorestamento,

das nuvens com seu discurso de chuva

da evaporação do silencio.

Água se faz dela mesma,

dos seus enigmas,

dos seus carretéis de água,

da medula e da semente da água

A água é descendente da própria água

água é ancestral dela mesma e de todos os seres.

Percorro rio por rio

vereda por vereda

correndo córrego por córrego

Córrego por córrego

Córrego por córrego

O sistema de um rio é delicado e complexo,

um rio não sobrevive sem os peixes,

sem as árvores das margens,

sem as formigas, sem as minhocas,

sem os pássaros que carregam as sementes nas fezes

e vão semeando árvores.

 

Rio, peixes, pássaros, bichos, insetos, formigas, minhocas, flores

fazem parte do mesmo enigma e se complementam

no diagrama e na arte final da natureza

 

Rio Branco, Rio Preto

águas de um soneto

Tenho a ponte e o poente

tenho pente do Rio Corrente

a lua cheia ponteia todo o vale

 

Tenho carinho

do Rio Carinhanha

Eu morro

no Rio dos Cachorros

Meus emblemas

no Rio das Emas

Muitas léguas

no Rio das éguas.

No rio dos porcos

Muitas águas

Eu me abandono

no rio do sono

Meu devaneio

no Rio do Meio

Eu sonho

no Rio Santo Antonio

 

Eu sei o cio do Rio das Fêmeas

Eu sei os seios dos cios das fêmeas.

Cio das fêmeas, em noites fogos,

Em noites fêmeas,

De fogo e fome de fêmea

de Rio das Fêmeas

O Oeste Baiano é a maior bacia hidrográfica do Nordeste

72 rios

72 rumos

e um só destino

o destino de ser Rio São Francisco

Sãofranciscando nossas emoções.

Boca do Rio Grande

Beijando a boca do Rio São Francisco

bem em frente a cidade da Barra com seu casario

A cidade se enche de desejo

ouvindo as línguas dos rios contando segredos

 

Os rios vão se entregando a outros rios,

se ramificando, se entrecruzando, se enriando,

entrando um rio no outro,

Rio-homem, Rio-mulher

Seja lá o sexo que rio tiver

Assim ás línguas

vão se tocando

vão se amando,

vão se lambendo,

se dizendo

o que só as águas sabem dizer.

 

Os rios se defendem no Comitê de Bacias. No umbigo dos dias

buscando refúgio legítimo contra os esgotos que são jogados

diretamente no leito.

Não se pode compactuar com a tietetização dos rios do Oeste.

 

Esgoto no rio é ato demente

e faz do rio um pobre penitente,

um rio é nosso irmão, nosso parente.

Matar um rio é o mesmo que matar gente.

 

Não se bebe água de rios digitais

embora eu digite com ênfase o nome dos rios

 

Estou na beira de um rio

que tem curvas de mulher

estou na beira de um rio

e sinto-me na beira de uma mulher

por isso essa ânsia de mergulho

de ficar dentro, lá na parte mais íntima

onde só vão os que sabem da luz santíssima do prazer da água na fonte

 

 

Os rios tem margem de palavras

as palavras tem margens de rio

só sabe quem sentiu

mergulhar na palavra

tem o gosto de se atravessar um rio

e a beleza de ficar dentro de uma mulher

 

Rio do Mimoso

Rio Formoso

Rio de São Desidério

Império dos rios

 

Sitio do Rio Grande

onde  a lua se expande

Lua leitosa

em uma curva

do rio de Formosa

 

Corre tanto rio no Oeste

que a terra se veste

toda de água

pra fazer nascer a plantação,

a soja, o milho e o algodão

tanta terra pra plantar

os tratores que aqui gorjeiam

gorjeiam mais do que lá

Não permita Deus

tanta água secar

O rio quer cumprir o seu destino

de um dia chegar ao mar

 

A soja com seus milhões de hectares

acaricia a pele da terra

preparando a canção da safra

folhas verdes na vastidão silenciosa do cerrado

Quilômetros de soja solidão a dentro, latifúndio até onde a vista alcançar

 

Violino de som verde

Na áspera espera do canto metálico das colheitadeiras

Grãos amarelos que dormirão armazenados em silos

e depois viajarão de carreta, de trem,

de navio, de avião para lugares distantes

 

Os grãos esmagados, convertidos em óleo.

A soja enlatada

lata a lata

lata a lata

lata a lata

lata a lata

enchendo as prateleiras nos supermercados do mundo,

o algodão do Oeste é transformado em tecido

e está nas casas e nas ruas da Europa, da Asia, dos Estados Unidos.

O sol lambe o tempo do alto de sua torre

A claridade canta e acende o azul.

Eis a fisionomia do cerrado baiano.

 

O algodão é uma guitarra de solos brancos

esperando a música das máquinas

 

O algodão canta dentro do sonho no coração da safra.

Guitarra branca na vastidão do Oeste

É o idioma branco da planta na língua da manhã agrária.

 

Assim como os rios repartem sua beleza

é preciso também repartir a riqueza.

 

O povo precisa, com urgência, ter acesso,

ao desenvolvimento e ao progresso.

O povo também quer ser sócio

da riqueza do agronegócio

 

No Oeste Baiano são poucos os ricos e muitos os pobres

É preciso dar dignidade ao ser humano

ou todo desenvolvimento será apenas um engano

 

Agricultores conectados com a bolsa de Tóquio,

de Londres, de Nova York, de Hong Kong, de Paris

devem saber que a miséria faz o ser humano infeliz

 

É imperativo que a riqueza seja dividida

pelo bem da própria vida.

 

Tem gente passando fome

fome de comida

fome de vida

fome de estudar

fome de aprender

fome de alegria

fome de prazer

fome de não ter

o que comer

Vejo nos olhos.

Pois são nos olhos

que a gente vê

o jeito da dor doer

 

É preciso repartir a estrutura fundiária e produtiva

para manter a esperança viva

 

No Oeste Baiano a média anual de luz solar

é de 2.739,6 horas representando um percentual de 3 por cento em relação ao total de horas do ano que atinge 8.760 horas

Agosto é o mês mais ensolarado do Oeste Baiano com uma média de 286,2 horas e o menos ensolarado é novembro com 188,6 horas.

 

Junho e julho são os meses mais frios com 22,2 graus.

É tempo de forró e das fogueiras de São João, de dançar quadrilha

e tomar quentão.

De maio a setembro: seca

De outubro a abril: chuva

Chove anualmente entre 900 a 1.500 milímetros no Oeste Baiano

 

Curvas de rio

são parecidas com as curvas do corpo de uma mulher

Os olhos de uma mulher são portos onde ancoro meu desamparo

a mulher com seus rios de desejo e seus cabelos de água

possui o mistério das canoas em noite de lua.

Estou na beira do rio ou na margem de uma mulher?

Olhos de peixes

nome de bichos

cheiro de plantas

sabores de lugares

noites de luares

 

Os rios espelham em sua moldura

os vilarejos e as cidades

e todas as suas vertigens

 

São 35 cidades no Oeste Baiano

 

Barreiras (A capital)

São Desidério

Correntina

Casa Nova

Cristópolis

Angical

Cotegipe

Wanderley

Riachão das Neves

Formosa do Rio Preto

Barra

Mansidão

Santa Rita de Cássia

Buritirama

Muquém do São Francisco

Brejolândia

Serra Dourada

Tabocas do Brejo Velho

Santana

Canápolis

Sítio do Mato

Feira da Mata

Cocos

Coribe

São Felix do Coribe

Jaborandi

Carinhanha

Pilão Arcado

Campo Alegre de Lourdes

Luís Eduardo Magalhães

Catolândia

Santa Maria da Vitória

Serra do Ramalho

Cristópolis

Remanso

 

O Oeste Baiano possui um milhão de habitantes.

80 por cento da população não tem esgoto e nem água tratada

 

São 4 vales férteis

O Vale do Rio Grande

O Vale do Rio Preto

O Vale do Rio Corrente

O Vale do Rio Carinhanha

 

O rio é um caminho

e o povo ribeirinho

sabe da água a sua língua

muitas vezes morre a míngua

minguando de fome na lonjura,

em noite escura, sem carne assada

e nem farinha com rapadura

É a fome no sertão

onde o rio não passa

é tempo de solidão

 

 

As grandes lavouras trouxeram também a sua face positiva

e transformaram uma região semimorta em terra viva

Entretanto no Oeste Baiano ainda se morre de verminose,

de tuberculose,

de parto,

de doença de chagas,

de lepra,

de abandono

sobre a febre da terra

 

Os rios nos ensinam

a geografia do horizonte

a mucosa das águas

e a dicção do que não é silencio

e nem música

sendo, ao mesmo tempo, silencio e música

O sabiá

O pássaro preto

O joão de barro

As emas

os caititus

os urubus

o gavião

as onças

o veado

o tatu

o mico

o tico-tico

a rolinha fogo-pagô

a juriti

O bem-te-vi

As garças

as marrecas

O martim pescador

 

Os bichos com o som de suas cores trazem madrugadas dentro da garganta e é do canto de cada pássaro que o dia nasce rompendo o útero da noite

Ah meu Rio Grande

no ombro do teu barranco

chorei minhas primeiras saudades

Ah meu Rio Grande

no ombro do teu barranco

chorei meus primeiros desassossegos de amores

 

Eh meu Rio de Ondas

A procissão das ondas

Capítulos de água sem intervalos comerciais

Cachoeira do Acaba-Vidas

Cachoeira do Redondo

Água do tesouro

No rio do ouro

um barranco ouviu meu choro

Língua de água

Língua de terra

de plantas

de pássaros

de peixes

Linguagem de rio é coloquial

som de água e sol

som de água e lua

Som de chuva,

sintaxe das árvores,

das folhas, das frutas

A canção das águas

principia nas raízes

e jorra na copa das árvores

na garganta dos pássaros

 

A garganta do dia se abre a espera da língua da noite

a boca da noite conversa em idioma de estrelas

que o rio traduz em seu espelho.

Um rio entra em outro rio

igual uma gaveta de água

uma gaveta de silencio

formando gavetas líquidas

águas que se engavetam

um rio dentro do outro

com a mesma magia

do homem dentro da mulher

 

 

Os rios ensinam em cada curva

uma árvore nova, uma nuvem,

um pássaro, uma palavra, um silencio

No Oeste Baiano a música aquática

é a canção do rio costurada pelos ventos nas árvores,

nas nuvens, nas vozes dos pássaros.

 

Rio Guará

Rio Tamanduá

Rio Borá

Rio Triste e Feio

e igual ao dia em que ela não veio

Rio Roda Velha

Rio Estiva

Rio Sassafrás

Vereda Mutum

Rio Formoso

Riacho Serra Dourada

Riacho do Brejo Velho

Riacho do Entrudo

Rio Ponta D água

Ribeirão da Ilha Grande

Rio Mosquito

Rio Pindaíba

Rio Balsas

O Rio de Correntina

encanta e ilumina

Prefácio de delírio

Composições de auroras

Rio de Janeiro

tanta tinta pra pintar

a pele do cajueiro

e vigoroso e belo

ipê amarelo

 

Eu aqui fico

Rio dos Angicos

Bem ao meu lado

O Rio Arrojado

O Rio do Nado

Subo no rochedo

tentando descobrir o segredo

da lua no Penedo

 

Um riso largo de rio largo

e eu me largo no rio

no Campo Largo

Rio que vai para todo lugar

Taguá,

Jupaguá

O Rio é uma verdelágrima em Wanderley

No povoado da Goiabeira se apresenta um desafio

Não sei se é um rio na beira de uma mulher

ou uma mulher na beira de um rio

 

Sem decifrar a visagem

O rio segue sua viagem

De aldeia em aldeia

Nego D Agua e sereia

na ponta da areia

Rio-menino

Rio-menina

 

Rio-homem

Rio-mulher

O rio sabe o sexo que bem quiser

 

Rio Jatobá

Rio da Pratinha

Rio Porto Alegre

Rio Fervedouro

Rio Passaginha

Rio Gado Bravo

que não aceita ser escravo

Rio Bastardo

Rio Sapão

Rio Riachão

Rio São José

Rio-homem

Rio-mulher

Rio Livramento (Livrai-nos do sofrimento)

Rio do Santo (Ouvi minha oração de água)

Não se deve permitir

a evisceração dos rios

No Oeste Baiano está uma parte do bioma cerrado,

vegetação de cerrados com florestas de galeria, veredas, marinbus,

Campos úmidos, caatinga arbórea e floresta submontana,

uma área de transição entre cerrado e caatinga

E vestígios de mata atlântica em Formosa do Rio Preto.

 

Em Formosa do Rio Preto na divisa com o Tocantins

esplende um lugar chamado Garganta

onde o vento canta uma música de pedra e rio

O tempo com seu avental de enigma

e seu martelo de vento

esculpe asas e azuis nas pedras

 

Jatobá

Marcela (Árvore com nome de mulher)

Macaúba

Marmelada de Bezerro

Tamboril

Jurema

Cedro

Pau D arco Roxo

Mandacaru

Umburana de cheiro

Aroeira

Angico

Sucupira Preta

Sucupira Branca

Barriguda (Árvore que parece uma mulher grávida)

Murici

Umburaa

Umbu

Ingá

Caju

Cajá

Ananás

Araticum

Imbiruçu

Gabiroba

Araçá

Araribá

Braúna

Jacarandá

Quaresmeira

Jenipapo

Gameleira

Canela de Ema

Assa Peixe

Bacupari

Cõco-babão

Pinha do Brejo

Cedro Rosa

Ipê

Buriti

Flor do Cerrado

Xixá

Cagaita

Sete Sangrias

Sete Sangrias de Água

Setenta e duas sangrias de rios

 

O Oeste Baiano é o parlamento das águas

onde os rios discursam pedindo preservação

 

As orquídeas batem continência quando o rio passa

com sua caravana de água.

O ipê acena gestos de flores e beleza

O rio contorna o dorso da serra

língua de água fazendo carícia

É o prazer do rio cantando seu êxtase de água e luz

É a música azul do silencio

na orquestra do agreste

o Oeste se veste todo de água

 

O rio não escolhe os lugares onde vai passar

são muitos os lugares para o rio molhar

Escrita de rio não é só pela metade

Um rio passa diferente de uma saudade

O rio tem esse jeito de ser que o tempo indica

o rio que passa, não é o mesmo rio que fica.

 

O tempo tem inveja dos rios porque o tempo é sem margens

Um rio não corre na margem do tempo.

Já o tempo passa na margem do rio

 

Escrevo os rios do Oeste Baiano porque a escrita vence

a caligrafia sinistra das queimadas e renasce verde e viçosa

A escrita vence a morte

 

Em muitos lugares o rio é uma espécie de escola.

Ensina a higiene, o prazer, a beleza, a alegria

e derrama nos lugares pobres a sua poesia

 

Quando um rio atravessa

regiões de miséria e analfabetismo

o rio ensina a fraternidade

o amor e a solidariedade

O rio ensina a pescar

ensina a falar

ensina a plantar

o rio ensina palavras

e também um jeito de falar

É divino o poder escarlate destas germinações das orquídeas

fazendo emergir os íntimos aromas da terra

A voz de outubro se estabelece por entre o sol e suas espigas de nuvens

As sílabas da água resvalam nos rochedos e as palavras encachoeiradas

cantam na garganta do abismo.

O rio faz  a curva por trás do silêncio

e segue com enigmas secretos nas algibeiras (as lagoas)

O Oeste Baiano tem um milhão de pessoas

Cada um tem no peito um porto

cada um tem nos olhos um cais

e o sonho verde dos buritizais

Há lugares de água salobra

Água braba que não canta

Água que quebra as paredes da garganta

Lavo as palavras

no Rio Grande

no Rio de Ondas

no Rio Corrente

no Rio Preto

no Rio Branco

no Rio das Pedras

Água luz que bebi

no Rio Itaguari

Este poema é uma bruaca de água que carrego através dos séculos.

Outorgo-me o cargo de secretário das águas, fiscal do azul.

Trago no meu peito oestino cangalhas de água

que abrem as cancelas dos meus versos em canoas e redes,

em varandas que abrem janelas pra lua

 

A música do rio jorra em lugares tão distantes

os seus acordes dissonantes

Formam novos rios e fazem a convocação geral da águas

na vastidão do Oeste Baiano.

 

Rio-ofertório

Rio-oratório

Rio-comunhão

de vinho e de pão

de paz e perdão

“Se as portas da percepção

estivessem limpas,

tudo pareceria para o homem,

tal como é: infinito”

Escreveu William Blake

O Rio Grande é o maior afluente da margem esquerda do Rio  São Francisco

Com uma extensão de 220 quilômetros

o rio desenha desejos em calendários de silencio e peixes

O Rio-cantor

Rio-do peixe

e da paixão

Os rios do Oeste Baiano tem o destino de ser Rio São Francisco

O Rio Grande quando encontra com o Rio São Francisco

Traz o Rio Preto

o Rio Branco

O Rio de Janeiro

O Rio de Ondas

É o parlamento das águas

onde os rios discursam pedindo preservação

A piracema é o cio dos peixes

é o espetáculo que os rios oferecem

repartindo  os sons da aurora

Um rio tem sempre algo a dizer

dizer curvas

dizes paisagens

Dizer mensagens

que só os rios sabem dizer

Pros que sabem ouvir o rio

Língua de rio é fácil de aprender

Mesmo quem é analfabeto

um rio pode ler.

Os rios se esgueiram e fazem tatuagem na pela da terra

A água sabe sua estatura

e seu canto eloquente

de trovador em noite de lua

As serras olhas contemplativas

com cara de monge budista

Um rio e seus altares

um rio e seus falares

O rio tem sua própria sintaxe

Sua linguística

sua gramática

 

Esse jeito de falar meio cantado

do jeito que corre um rio fazendo curvas

assim também corre a fala do povo do lugar

A fala do povo faz curvas de rio

só sabe quem ouviu.

Não existe nada igual

Uma casinha branca e um rio cantando no quintal

É preciso ter cuidado com a cobra sucuri

num bote ele pode lhe abraçar e lhe engolir

Em cada cais uma saudade

em cada porto ancorei um instante

entre o que é espanto e instinto

entre o que não sei e o que sinto

O Oeste Baiano tem um milhão de pessoas

Cada um tem no peito um porto

cada um tem nos olhos um cais

e o sonho verde dos buritizais

Sou um súdito dos rios

A eles entrego meus desatinos e solto minhas amarras

com minha pele toda costurada de água e lua

De gerânios ou tulipas, de buritis,

Cedros, ipês, pequis, aroeiras,

Araras, micos, juritis,

Rolinhas fogo-pagô

Gaviões. Lobo Guará,

Gaviões e emas.

 

É esta a estética que professo

na raiz da filosofia

Do pão e da poesia

 

Águas grisalhas

grisalhando meus olhos

Eu sou póstumo e pretérito

o rio é meu invólucro

mecânica de minha compulsão

 

Ouço as dicções do rio

canto sua fonética

sua estética

e a converto no mosaico dos meus desejos.

Elegantes e aristocráticos, os ipês e os buritis

comunicam lilases, verdes e azuis as águas.

Um rio com seus números

e sua matemática inviolável

produz riqueza, alimento e progresso.

Apesar de ser lírico em seu espasmo

o rio também se enfurece

e a fúria de um rio é maior que a noite mais longa

o rio berra seu desequilíbrio de bicho que não cabe dentro de si

transpõe as margens em sua febre e seu delírio,

Engole muros, veículos, telhados, derruba casas,

Arrasta as pessoas pelo pescoço e mata sem piedade os seres que atravessam o seu caminho de rio em fúria.

O rio apresenta seus dias de espanto

rumina a catástrofe e a tragédia em seu estômago

quando desanda a produzir desamparo e cataclismo.

No meio da crise nervosa, o rio espuma, cachorro doido latindo água por todos os lados. Águas vândalas.

O vandalismo das águas é resultado das agressões do ser humano

ao sistema nervoso do rio. O rio possui mandíbulas poderosas

cujas mordidas de águas são destruidoras.

Quando passa a fúria, o rio volta para o seu leito,

sereno e em paz como se nada tivesse acontecido

e segue seu curso e seu espelho de sol e lua

 

Um rio as vezes me atravessa de solidão

em gavetas de água

em arquivos de água

o sol estabelece memorandos de luz

decretando o azul que o rio soletra em seu idioma de espuma

O rio é uma engrenagem de água com seus peixes e seus engenhos

Sua fauna e sua flora dialogando com as árvores das margens

mecanismos líquidos que o rio derrama de horizonte a horizonte.

Um rio não se exonera. Ele calcula o azul em que expressa sua linguagem

 

Tenho rios no meu currículo de margens

e horizontes nas cordas de minhas lágrimas

o rio foi minha aula inaugural.

 

É sobre os rios do Oeste Baiano que escrevo

É deles que extraio a matéria prima da minha poesia

Tenho alma de rio. Tenho rios dentro da alma.

 

É preciso respeitar os estatutos da água

os decretos da água

os códigos da água

o cio da água

Há rios que correm dentro dos versos

com suas libélulas

vestidas de água e lua.

A língua do rio tem sua própria autonomia,

sua dinâmica, sua bússola, sua dicção de liberdade.

Um rio e seus falares

um rio e seus cantares

um rio e seus luares

 

As cachoeiras são instituições do rio

obra de arte na qual as águas se penteiam

Cachoeira do Acaba-Vidas

Cachoeira do Redondo

Cachoeira do Rio do Ouro

Cachoeira do Estrondo

Lagoa Azul

Sumidouro do Inferno

Rio subterrâneo na gruta do Padre em Santana dos Brejos

O Rio belo

no povoado de São Marcelo

em Formosa do Rio Preto

Sítios arqueológicos na Serra da Piragiba e em Missão de Aricobé.

A biografia de um rio nunca se escreve.

É certo dizer que rio é música

e que música é rio.

 

É impossível escrever o poema do Oeste Baiano

sem contar com letras de água

O engenho e o desenho mitológico dos rios,

o diálogo das margens com a arquitetura das cidades

e a escala de influência que o rio tem no sotaque de um povo de um lugar

É o rio quem compõe o essencial e sem limites.

Ele está na soja, nas frutas, no milho, no algodão,

na farinha, no arroz e no feijão.

O rio está no corpo dos seres humanos

 

O rio está no boi que berra no fim da tarde

nos pássaros chamadores de auroras

e nas horas que manhançavam,

nos pirilampos e nos urubus que se reúnem para decifrar um enigma

 

Entre o que vive e o que morre

o rio atravessa sua membrana de mistério e silencio

As matas ciliares são as palpáveis pálpebras do rio

O rio caminha ombro a ombro com a história.

Qualquer rio. Qualquer história. Qualquer lugar.

Protagonista de civilizações

o rio luta para nunca se exaurir e desfere coices de água

 

É impossível contar a história do Oeste Baiano

sem contar a história dos rios

72 rios

72 rumos

E um destino de ser São Francisco

 

Cada morador tem no peito um porto

Cada morador tem nos olhos um cais

e o sonho verde dos buritizais

 

Um rio desemboca em outro rio

da forma que uma palavra desemboca em outra palavra

por trás de um rio quase sempre existe outro rio

e outro rio e outro rio e outro rio

por trás de uma palavra sempre há outra palavra e outra palavra

e outra palavra.

E outro rio e outra palavra.

Rio e palavra são feitos

do mesmo impulso de entrega

 

Do mesmo nomadismo que não permite a estagnação

e desnudam horizontes de surpresas.

Não se pode tirar a casca de um rio

como se tira a casca de uma árvore ou a casca de uma palavra

um rio é um pintor de paisagens em seu atelier de êxtases e delírio.

“A beleza do mundo tem duas margens,

uma do riso e outra da angústia,

que cortam o coração em duas metades”,

disse Virginia Woolf

 

Muitos dos caboclos ribeirinhos ainda vivem de forma primitiva.

Trabalhando de sol a sol no cabo da enxada,

cuidado do reino da mandioca e rezando para chover.

Moram em casas de pau a pique (taipa) e não tem esgoto

e nem água tratada. Bebem água do cisterna, da lagoa, do pote

e sobrevivem com a canga no cangote.

 

Muitos não sabem ler, não tem luz elétrica,

Não tem acesso a saúde. São homens e mulheres

que representam a solidão dentro da solidão.

Quando se olha na pele destes seres

Sente-se que há nos olhos deles uma angústia daqueles que nasceram

para viver como se não vivessem.

São homens e mulheres que com o tempo e o sofrimento

vão ganhando a cor das pedras.

Pedras que, de vez em quando, se iluminam com um sorriso triste.

 

Pedras que de vez em quando pensam que são gente.

Gente quando se transforma em pedra é incorporada a paisagem

e atinge estágio de mandacarus, cactos, terra queimada e sem horizontes.

 

Lá no fundo do Brasil profundo

onde não existe médico

nem delegado, nem padre e nem juiz

O rio é a única referência

O rio com sua bondade suprema

passa por esses lugares para que a solidão não faça morada nas almas

Água é uma reivindicação da carne

É uma súplica das árvores

Não adianta espremer o silencio

do silencio não sai água.

Não há saúde sem água,

Não há educação sem água

Água é o primeiro fundamento da vida

 

Em sua disciplina

esta é a ética

que o rio ensina

Gente sem água

É gente-solidão

 

Para falar sobre o Oeste Baiano visto meu casaco de água,

encho meus olhos de rios e vastidões

e navego de rio em rio em rio em rio enrio

Tenho alma de rio

tenho rios na alma

Quando estou na beira da água

parece que vou mergulhar no corpo de uma mulher

Corpo de mulher possui segredos de água, de curva de rio

Sou beiradeiro de muitos rios.

Os olhos das mulheres são meu porto, meu ancoradouro

O Oeste Baiano é uma diocese de rios

em suas pastorais de beleza

águas que batizam e fazem a catequese de um povo

Fica sendo (esta escrita) uma moringa de água

que levarás em tua capanga de saberes

Esta é a canção dos Xicriabás, dos Aricobés e dos Tapuias, dos negros e dos brancos que estão nas raízes da formação do povo do Oeste Baiano

A palavra escrita

é infinita

e não seca nem na estiagem mais longa

A escrita de um rio não perece

e oferece água de sua música de um século para outro século

Ainda que o rio emagreça e suas costelas de água fiquem a mostra.

 

Daqui a 100 anos o que será dos rios que escrevo?

Ainda terão portos?

Estarão vivos?

Estarão mortos?

Escrevo para que os homens e mulheres do futuro

Tenham mais lucidez do que os homens e mulheres do presente,

o rio é nosso irmão, nosso parente.

Matar um rio é o mesmo que matar gente.

O que escrevo é a caligrafia dos rios

Gravada no rosto do futuro.

 

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