A CONSTRUÇÃO DO POEMA

25 de ago de 2021

Roberto de Sena

 

Durante toda à noite

lutei com as palavras.

 

Lá do  impulso  nervoso

de onde acontece a luz do raciocínio

Elas parecem dormir

numa cama de nuvens

e não escutam o meu chamado

 

Reli meus poetas,  estudei, pesquisei,

fui  ao dicionário

e as palavras permaneceram quietas

numa circunferência de sombras

 

Abrir a janela e uma chuva  fina

choromingava sobre a noite

rangendo seu soluço  chuvoso

A  grama do jardim verdejava

crescendo silenciosa

num  trabalho contínuo

 

Mas as palavras não brotam

no  feitio da  grama

nem verdejam espontâneas

 

Assim prossigo

minha luta dentro da noite solitária

Pio de ave noturna

latido de cachorro

um choro de criança

cortando a  carne escura da noite

 

Um bêbado  passa  cantando

todo molhado de chuva

na chuva da noite

barulho de automóvel

som de música distante

 

As quatro e meia da manhã

quando a noite vai ficando pálida

e os rumores do  dia

começam a encher o espaço

sinto, finalmente, a vertigem do poema

 

Ouço os seus rugidos

em pontos ainda distantes

e confusos

nos confins do cérebro.

 

Feito um animal ferido

no meio de uma floresta densa

e quase impenetrável

o poema se debate em fúria

e recusa-se a total entrega

 

Mas seu rugido cresce

diferente da grama

que cresce no jardim

cresce como se  fosse

um fogo crepitando azul

projetado num jogo  de espelhos

 

Tal uma flor

que ao nascer fizesse barulho

o poema barulha

 

Igual uma flor que explodisse

o poema explode na página

e as pétalas incandescentes

iluminam a nova manhã que chega

 

Poema escrito no ano de 2009

 

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