O QUE É A MORTE SOB O PONTO DE VISTA DAS DIFERENTES CRENÇAS E RELIGIÕES?

03 de nov de 2018

São Paulo, SP 09/04/2018 – TÚMULOS NO CEMITÉRIO DA CONSOLAÇÃO – Foto: Leo Martins

A morte é a única certeza que se pode ter na vida. No entanto, a forma como esse mistério é encarado difere de acordo com as crenças de cada um. Há correntes religiosas que creem na ressurreição, enquanto outras dizem que ressuscitamos ou voltamos à Terra até mesmo na forma de algum animal. E há ainda aqueles para quem a morte significa, simplesmente, o fim da vida.

Nesta sexta-feira, 2 de novembro, Dia de Finados, conversamos com seguidores de diferentes religiões* e linhas filosóficas para entender o que a morte significa para cada um deles e o que a reflexão sobre ela pode nos ensinar. Os principais trechos das conversas estão no vídeo acima, e você pode conhecer mais sobre cada uma das crenças nos textos abaixo.

Dom Leonardo Steiner, bispo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

(foto: Gustavo Godoi/CB/D.A Press)
A morte para os católicos significa caminhar ao encontro da eternidade. Para quem pratica a religião, a vida não é tirada, mas transformada. “É uma perspectiva extraordinária, mas meditamos pouco sobre isso. Os grandes homens e mulheres de fé contemplaram muito essa realidade, e por isso ansiavam pela eternidade. Eles caminhavam ao encontro da morte de maneira tranquila e serena”, comenta Dom Leonardo, padre há 40 anos.
Após a morte, o homem não é mais submetido ao tempo e ao espaço, diz Steiner. Dentro desse mistério, o céu e o inferno não são lugares geográficos, mas “estados”. “O céu é a participação plena de Deus, enquanto o inferno é o distanciamento. É como se o inferno significasse não participar mais do amor de Deus. Até gostaríamos de ser amados, mas agora não há mais essa possibilidade.”
A chegada da morte para um ente querido é difícil, e a separação nem sempre é tranquila, mas o padre lembra que é necessário acolher a finitude da vida. “Ao meditar sobre a morte, a nossa existência ganha um outro sentido, nos ajuda a perceber que a grandeza não está nas nossas mãos. Tudo se esvai, mas, de repente, começamos a perceber que ali (na morte) há outra grandeza”, finaliza.

Geraldo Campetti Sobrinho, vice presidente da Federação Espírita Brasileira (FEB)

(foto: Gustavo Godoi/CB/D.A Press)
Nós todos viemos do plano espiritual e, para o plano espiritual, nós voltaremos. No espiritismo, a morte não existe. Ela apenas é um “passaporte” para a verdadeira vida. “Como espíritos imortais que somos, a grande surpresa que temos é que, ao atravessar esse frontal, nos deparamos com a própria vida”, esclarece Geraldo Campetti Sobrinho.
Uma das doutrinas espíritas fundamentais é a reencarnação, ou seja, a volta do espírito, em outro corpo físico, em um novo contexto, em uma nova família e até mesmo em outro país. Segundo o Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, o materializador do espiritismo, a reencarnação é uma necessidade para evoluir. Para passar por provas e seguir em frente no caminho evolutivo.

Josimar Francisco, presidente do Conselho de Pastores do Distrito Federal

(foto: Gustavo Godoi/CB/D.A Press)
Para os cristãos evangélicos, a morte é fenômeno natural e que acontece apenas uma vez. Ao morrer, o corpo é separado do espírito. O que é matéria vira pó, enquanto o espírito volta para Deus. “Temos o entendimento de que a morte é uma separação do corpo físico e do espírito, e o espírito não é meu, ele pertence a Deus”, explica o pastor Josimar Francisco.
Embora seja difícil se separar de um ente querido, o pastor esclarece que, para os evangélicos, a morte não significa perder, mas ganhar. “Não é o fim para a gente. No céu, não haverá mais dor ou lágrimas, a gente não sente nada disso. Ao contrário, se encerrou a nossa participação neste mundo de choro e decepção.” No céu, enfatiza o pastor, os homens viverão uma nova vida, sem sofrimentos.
O Dia de Finados não é uma data especial para os evangélicos. Para eles, segundo o pastor, a vida tem que continuar, mesmo após perdas dolorosas. “Deus sabe o melhor para todos nós. Ele criou a morte também, e temos que aceitá-la”, finaliza.

Kélita Cohen, representante da Associação Cultural Israelita de Brasília (Acib)

(foto: Gustavo Godoi/CB/D.A Press)
Parte do ciclo da vida, a morte é vista com naturalidade para o judaísmo. Nas palavras de Kélita Cohen, estudante de formação rabínica, “não é que o judaísmo não se preocupa com a morte. Ele não se ocupa da morte”. A preocupação, então, é com a vida, diz.
“Falamos que o que fizemos da vida vai ter reflexo depois da morte. Os que ficaram vão sofrer os impactos das minhas ações enquanto estive aqui. Esse é o principal reflexo”, comenta Kélita.
Uma das peculiaridades da religião judaica é que o enterro é preparado pela própria comunidade. São voluntários que se prepararam para cuidar dos preparativos, para que a família não tenha de lidar com isso no momento. “É uma forma de aliviar a carga”, diz.

Sato, monge representante do shin budismo no Brasil

(foto: Gustavo Godoi/CB/D.A Press)
Depois da morte, há o renascimento. A Terra Pura nos chama e os entes queridos que fizeram a passagem antes de nós nos conduzem para a nova vida. É assim que o monge Sato explica a morte sob o ponto de vista de sua religião.
A Terra Pura é vista como um lugar bonito, onde todo o bem que se quer fazer ao outro se realiza. “No budismo, não se fala em alma, mas se fala em espírito. (Ao morrer), é como se deixássemos esta Terra Impura e nos transferíssemos para a Terra Pura. E, lá, podemos passar algum tempo nos preparando, ou para ir mais adiante, para um local mais sublime ainda, ou retornar a essa vida”, diz o monge.
O budista não acredita em inferno ou purgatório. E todas as ações — boas ou ruins — já são julgadas ao longo da vida. “Se a pessoa faz o mal, certamente pode parecer aos outros que o crime compensa. Mas, não. Ele sofre. Sofre até em silêncio, até escondido, mas ele recebe o merecido por seus atos, mas nesta vida”, explica Sato.

Tânia Kruschewsky, praticante de mahayoga

(foto: Gustavo Godoi/CB/D.A Press)
Longe de ser uma religião ou filosofia, a mahayoga se denomina como um conjunto de técnicas e exercícios para o autoconhecimento. “Nós brindamos a vida. Não somos esse corpo, essa carne que está aqui. Não acreditamos nisso. Temos algo maior que somos. Somos essa essência e essa força que age”, afirma Tânia Kruschewsky.
Para ser essência, explica Tânia, é preciso se conhecer. Além das práticas de meditação e do canto sagrado, a yoga também propicia saúde, para que seja possível sentir essa força que age sobre os seres e que se reflete dentro do peito. “Se você acredita em algo mais, em uma força divina, você vai ter segurança de que, ao passar pelo umbral, você vai sair do corpo físico e vai para outro estágio. É uma nova fase de jogo”, compara.

Wilton Barroso Filho, filósofo e professor da Universidade de Brasília (UnB)

(foto: Gustavo Godoi/CB/D.A Press)
Para o filósofo e professor da Universidade de Brasília (UnB) Wilton Barroso Filho, a morte pode ter diversos significados. “A gente morre várias vezes na vida. Morre na infância, quando vira adolescente, e na adolescência, quando vira adulto. Morre para uma fase da vida quando atingimos determinadas idades, e a gente também morre para um tipo de vida quando faz vestibular”. É um ritual passagem, em geral, sem retorno.
Ainda que haja a tentativa de buscar significados abstratos, para o professor, que é ateu, a morte em si é simplesmente a vida que acaba. Na visão materialista, a consciência emerge do funcionamento de células, órgãos e tecidos. Quando esse mecanismo cessa, cessa também a consciência. “Pessoalmente, acho que eu não vou pra lugar nenhum. Eu vou virar pó. Aspiro ser cremado e ponto final.”
Tal percepção, no entanto, não significa que não exista “vida após a morte” para os ateus. “Eu não rezo para o meu pai e minha mãe (que já morreram), mas eles vivem em mim, e o fato de eles viverem em mim — que nada mais é do que a memória que tenho deles — me faz alguém melhor”, comenta o professor, que também fala da importância da vivência do luto. “É um processo que permite a cada um de nós entronizar os nossos mortos. A gente se torna mais forte, mais humano, quando incorpora os nossos mortos.”
MURAL DO OESTE / Com Correio Braziliense
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